18.12.06

SIM!

Pelas minhas amigas

que se viram interiormente mutiladas na sequência de abortos em parteiras de vão de escada, mais por falta de cultura que de dinheiro;
que em desespero de causa e de circunstância aceitaram praticar sexo com os ilustres clínicos que depois lhes fizeram as IVG;
que em situações de dependência viram as suas vidas em parte destruídas pelo aparecimento de filhos em plena adolescência;

Por mim.

(Em termos morais, políticos e filosóficos, o que eu gostaria de ter escrito sobre o assunto poderá ser lido aqui.)

17.12.06

um mundo de adolescentes

Reflexões a propósito de uma sociedade que cada vez mais se infantiliza:

«(...)Esta evolução põe em causa a autoridade, a tradição, o saber inerentes à condição de adulto ou de mestre. A inexistência da figura paterna nas sociedades actuais traz um grande problema à educação das crianças: não existe fundamento para a autoridade. E quando os sistemas clássicos de autoridade deixam de funcionar, vemos aparecer paródias de autoridades excêntricas ou pseudo-carismáticas, reconstituições mais ou menos autênticas de sistemas tidos como tradicionais, muitas vezes reinterpretações ideológicas das tradições, como o fundamentalismo.
Não é por acaso que vivemos uma época marcada por conflitos aparentemente religiosos. E corremos igualmente o risco de caminhar para sistemas de tipo ultra-repressivo, diria tecnológico-repressivos, fundados numa concepção de controlo permanente: poderes dotados de mil olhos e de grandes orelhas. O risco, quando a autoridade se dissipa, é que a vigilância ocupe o seu lugar».

Entrevista a Jérôme Bindé (UNESCO), aqui citada com a devida vénia ao Ministério da Educação por ter decidido retirar dos curricula do secundário a disciplina de Filosofia - aprender a pensar sobre o que nos acontece pode, de facto, ser uma actividade alienante e perigosa...

Para ler na íntegra:
a
Vers un monde d'adolescents
LE MONDE | 16.12.06
a

16.12.06

holocausto(s)



No outro lado civilizacional do globo estão uns senhores deveras feios reunidos a discutir coisas sem sentido na esperança de conseguirem dar um outro sentido ao mundo, a ver se de uma vez o encaixam nos horizontes dos seus estranhos e limitados conceitos de humanidade e ordem natural das coisas [BBC News].
Deste lado, eu gostaria de ter visto mais afinco, mais trabalho sistemático, mais interesse dos antigos aliados em divulgar massivamente os outros crimes contra a humanidade do século que passou, nomeadamente os dos milhões de pessoas igualmente assassinadas pelo regime estalinista.


Claro que é mais fácil às democracias ocidentais não ter que admitir terem-se aliado a um ditador genocida para aniquilar um outro, deixando ao primeiro a garantia de não se meterem demasiado na gestão interna do seu império.
Mas, em boa verdade, de um e de outro lado somos tão iguais nisto como em tudo não e há quem não tente manipular os factos históricos conforme pode por forma a manter uma opinião pública «informada», minimamente coesa e apoiante, garante da perpetuação dos aparelhos vigentes.

foto: trabalhos forçados num campo de concentração, URSS, anos 30

13.12.06

é natal... (3)

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via abrangente, mais uma vez.
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em atraso...

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... e só para assinalar a morte de Augusto Pinochet.
Já foi tarde.
a

é natal... (2)

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As composições e recomposições familiares também dão nisto: este ano volta o Natal à casa-mãe, com cheiro a infância e mesa grande. Sabe bem.
a

3.12.06

a

ao antónio ramos rosa
e à joni


Define-se assim um rio
ou uma vertente
- constelação ávida de carne
e de silêncio

Nada se nos cabe, é docemente
que caminhamos sobre as coisas
e a boca é farta de pequenos vidros
que se cospem lentamente entre as palavras.

Dizemos então os dias, os verbos, as sementes
como quem sabe e se procura um fim
que quando chega já não é lugar nenhum,
e sangra.
a
(1989)
a

29.11.06

é natal...



... está de regresso a epidemia de peditórios!

Os eleitos da semana:

- ajudar um médico a angariar 5000€ para a trasladação de um corpo;

- prover, mensalmente, às necessidades de bens alimentares de uma instituição que alberga uma dúzia de crianças menores de 12 anos retiradas às respectivas famílias. (Ficamos a saber que entre os consumos dos meninos constam 2,5 kg de café...)

Ou me engano muito ou não tardará a estar de regresso o velho gosto pelas mesas de canasta. Mantendo-se, obviamente, o não menos velho hábito de fugir aos impostos e aos descontos por onde se consegue.

24.11.06

alexandre litvinenko

«Os autores deste envenenamento quiseram enviar uma mensagem. O polónio não tem utilizações terapêuticas e é preciso fabricá-lo. A mensagem é a seguinte: quem o administrou tinha acesso a fontes de radioactividade e queria que se soubesse que é capaz de o usar para matar. Os serviços secretos e as oficinas dos terroristas são perfeitamente capazes de encontrar produtos que não deixam qualquer vestígio.»

Pascal Kintz, director do laboratório de toxicologia Chem Tox, em Estrasburgo, citado pelo jornal «Le Monde».

amanhã

parece que vai haver poesia:


link: mais detalhes

17.11.06

a cor do dinheiro





É na Palestina, mas podia ser num sem-número de sítios por esse mundo fora. Chamem-lhe guerra, guerrilha, terrorismo, terrorismo de Estado, ponham-lhe os nomes que quiserem: eu vejo mesmo é sangue. E muito lucro entrar nos bolsos de quem à custa dele faz vida.


9.11.06

rumo a marte...

a

Ignoro quem seja o autor da ideia, assim como ignoro se terá imaginado o efeito que os preparativos para as decorações de Natal iriam ter plantados bem no meio do Outono, mas o espectáculo surrealista com que me deparo todos os dias ao passar pelo parque Basílio Teles é no mínimo uma obra inusitada.









Dá-me sempre a ideia de termos colonizado outro planeta: construímos casas, parques, ruas, mas a atmosfera e o clima obrigaram-nos a manter a vegetação local. Entre ela estas árvores de gigantescos frutos prateados.






Outras vezes penso numa espécie de antevisão de um futuro mais ou menos próximo: misturem-se alterações climatéricas, chuvas ácidas & afins e quem sabe não vamos ver árvores a frutificar em enormes bolhas metálicas cheias de gases tóxicos que rebentam quando estão maduras (afinal a época é de diospiros).



[Não sei como ficará a obra acabada, mas nestes dias soalheiros vale a pena espreitar a súbita transformação operada no centro de Matosinhos. Mais aviso que é melhor ter cuidado, eu quase me esquecia de uma passadeira tal foi o impacto de levar com as bolas pela primeira vez.]


6.11.06

o estado das coisas

a


Iniciei hoje o sétimo ano de sucessivos contratos a termo certo de seis meses ao serviço do Ministério da Saúde.
Sem mais conversa.


29.10.06

tarrafal, 70 anos



post dedicado a todos aqueles que ainda acham que o fascismo foi pêra doce




fosso












cela





















muro exterior e entrada

african man

ou iggy pop no seu melhor (que é quase sempre...)

28.10.06

outras opções: clandestinidade, emigração



Parece que não há alívio que não dê em grande susto:


A criação de bases de dados genéticos para fins forenses, ainda que justificável, encerra também alguns perigos. Um cidadão francês foi recentemente condenado por se recusar a fornecer o perfil de ADN para ficar em arquivo. O crime na origem deste processo? Ter participado na destruição de uma cultura de milho transgénico na sequência de uma qualquer acção de protesto... (com toda a franqueza, isto não tem cheiro aos tempos da velha senhora?)


E agora, que pensar quando se anda a falar no mesmo tipo de coisa associada a fins de identificação civil? O Governo tem «plena consciência dos problemas e da ambição deste projecto, que com probabilidade exigirá gradualismo e modulação adequada». [Público]


E, agora e sempre (ao que se vê...), que pensar de um país que não parece minimamente preocupado com a questão?
À parte um punhado de outras razões, quem nos garante que essas bases de dados estarão sempre nas mãos de um estado democraticamente constituído? Os irrepreensíveis arquivos de identificação civil franceses, por exemplo, foram de inestimável serventia aos nazis para descobrir judeus.


27.10.06

será que vai haver cartão?

«Uma restrição aos direitos fundamentais à privacidade e à protecção dos dados pessoais ou à autodeterminação informativa», diz a Comissão Nacional de Protecção de Dados acerca da proposta de criação de um cartão único de identificação dos cidadãos nas suas relações com os vários departamentos do Estado. Apesar de prever a existência, no mesmo chip, de quatro números de identificação distintos (civil, fiscal, utente do SNS e da Segurança Social), o cartão pode «funcionar como um verdadeiro número único, quer de identificação nacional do cidadão, quer de chave de acesso à totalidade da informação que permite compor uma imagem completa da pessoa». [Público]

De vez em quando ainda há notícias que nos fazem sentir um tanto ou quanto aliviados...


25.10.06

estória, história, História, histórias

1. Ver jornalistas chamar estórias às histórias que têm em mãos não deixa de ser elucidativo quanto ao conceito que têm da profissão e quanto ao grau de fiabilidade da Imprensa que por cá temos.

2. Ver tanto regozijo nos quase 250 comentários ao post que anonimamente denuncia o alegado plágio* de Miguel Sousa Tavares em «Equador» é no mínimo curioso (gostei particularmente do de 'Clara Pinto Correia'...). O autor do romance diz tratar-se de factos históricos. A ser assim, pode a História ser plagiada?
In dubio, pro reu - a matéria exposta não é suficiente para me convencer do crime.

3. Todos os anonimatos são detestáveis. Desresponsabilizam. Foram sempre uma das armas dos regimes totalitaristas.
Uma assinatura não tem que ser um bilhete de identidade, mas, mesmo inventada, é uma referência que permite nomear as coisas. (Por isso mesmo este blog não aceita comentários sem nome.)

Acrescento à meia-noite:
4. As más intenções anónimas permitem quase tudo, como muito bem demonstra o Blasfémias.

*Acrescento em 30.out.2006:
Este endereço (freedomtocopy.blogspot.com) abre presentemente um blog com o título «Equador: Miguel Sousa Tavares» que se dedica à divulgação do romance, «uma obra considerada, unanimemente, de referência».
De referência? Unanimenente? Só se for nas vendas. Bem escrito, bem construído, gostei bastante de o ler. Mas, sem ser especialista, não me parece que traga algo de substancialmente novo nem no estilo, nem na estrutura, nem na forma como a estória evolui.
Só o futuro poderá aferir das referências que guardou. Até lá, tirem-me dessa unanimidade, por favor.

23.10.06

um país de doutores





Têm entre 7 e 8 anos e 25 horas semanais de carga horária curricular. Mais cerca de meia hora diária de TPC. O que dá à volta de 27 horas por semana, ou seja, menos 8 do que as horas de trabalho que um funcionário público, adulto, tem que cumprir.


Se frequentarem as tão faladas actividades extracurriculares nas escolas públicas de Matosinhos, são brindados não com uma, nem com duas, mas com TRÊS horas semanais de Inglês (já lá vão 30!), mais a Música, a Educação Física (que até agora era parte do horário lectivo normal), o Estudo Acompanhado... (Isto, numa escola com espaço exíguo, e que por isso só oferece horário extra três dias por semana aos mais velhos, dois dias aos mais novos. Não fosse esse pormenor, levavam todos com uma carga horária de 40 horas semanais...)


Ignoro o que passa pela cabeça de quem decide estas coisas. Nas reuniões, bridam-nos com discursos bem intencionados, com o dinheiro que se gasta em ATL, com o nobre propósito de facilitar a vida aos pais... mas não se fala no bem-estar dos meninos, que é suposto terem vida para além da escola, que é suposto terem um futuro mais largo do que batalhar pelas médias que um dia poderão dar acesso ao Ensino Superior.


Se calhar até dá jeito crescerem assim: quase duas décadas de ininterrupto marranço, de premente necessidade de ficar entre os melhores, não deixam muito espaço a que se pense nos outros lados da vida, a que se tentem caminhos divergentes, a que se experimentem aventuras pelo mundo.


Se o que se vê, muitas vezes, quando se olha à volta é uma mole de jovens (e menos jovens) adultos alheados da realidade do(s) mundo(s), sem noções complexas de comunidade, isentos de capacidade crítica, a viver fora de tempo a adolescência que acabaram por nunca poder ter, por que carga de água se insiste na fórmula? Será que a ideia é levá-los também rumo a uma infância tardia, passando então a adolescência mental a ser vivida lá mais para a meia-idade?


22.10.06

4 dias, 4, sem acesso à rede


O país em alvoroço: ele são as finanças locais e as taxas na saúde, ele são as greves na função pública, os aumentos nas contas de electricidade, ele é o direito ao aborto e o referendo que se avizinha, ele é a rivolição...

4 dias, 4, a espreitar tudo isto via tv.

Jorge Palma, «Sonhadores Inatos», ou um lúcido comentário que talvez fosse útil trazer ao debate. A ouvir aqui:






PS - & afinal a ligação à internet, via netcabo, estava a ser bloqueada pelo filtro de ruídos da... tvcabo. Haja pachorra!


13.10.06

um texto inevitável...

... é «Um livro inevitável», sobre o papel da luta académica em Coimbra nos anos que antecederam a revolução, que o João Tunes escreveu a propósito da edição de «Anos Inquietos». A ler no água lisa.

11.10.06

9.10.06

a papelaria jóia

A história passa-se numa das escolas públicas do concelho de Matosinhos (embora eu suspeite que se alarga a todos os estabelecimentos do 1º ciclo do Ensino Básico que integram o agrupamento escolar em causa, pelo menos) e testemunho-a desde há três anos.
Aos encarregados de educação é dito que os manuais e livros de fichas necessários em cada ano lectivo se adquirem na própria escola.
À primeira, assim fiz. E qual não foi o espanto ao receber, um mês depois, a respectiva factura emitida pela Papelaria Jóia (algures em Sta. Cruz do Bispo, se não estou em erro).
À segunda, já não fiz. Nem à terceira. É uma questão de princípio: encomendei os livros na tabacaria aqui da zona. Mas antes tive que ir saber quais eram, porque a relação de material escolar fornecida na apresentação do ano lectivo não incluía títulos ou editores, só os preços.
Eu não sei a quem pertence a Papelaria Jóia. Mas até gostava de saber...
Como gostava de saber a que propósito é que a autarquia, por intermédio das escolas sob a sua alçada, promove a venda dos livros necessários a cerca de 300 alunos (ou muitos mais, se for todo o agrupamento...) com lucros para uma única das inúmeras papelarias do concelho.

8.10.06

ele às vezes há mistérios...





Com o fim da cortina de ferro e um mundo que tenta definir-se um outro equilíbrio, parece ter esmorecido o interesse em denunciar o que se vai passando para os lados da Rússia, aquele imenso país onde se joga xadrês à mesa dos cafés, e que mais uma vez está entregue às mãos de carniceiros.
De vez em quando, lá vai aparecendo uma reportagem solta em qualquer lado, e a gente lá vai aprendendo sobre o inenarrável número de mortes nos quartéis durante a recruta, sobre as mafias da construção civil que controlam autarquias, polícias e tribunais e conseguem desapossar edifícios públicos, indústrias e povoações inteiras, sobre os campos de férias militarizados onde os meninos aprendem a defender a mãe-pátria e a treinar-se em jogos de guerra, sobre um país dominado pelos apaniguados de um ex-oficial dos seviços secretos soviéticos, sobre mais um assassinato...
Há dias, foi um banqueiro - à frente do banco central, parece (conclusão óbvia) que tinha mesmo hipótese de fazer frente ao branqueamento de capitais, conforme anunciara. Agora foi uma jornalista incómoda, internacionalmente reconhecida pelo seu trabalho na cobertura da segunda guerra da Tchetchénia. Anna Politkovskaia ultimava uma reportagem sobre o uso de tortura na região.


A pátria de Vladimir Putin é um país a saque. As mafias dominam tudo, aterrorizam, controlam efectivamente o aparelho do Estado, ajudadas por muitos ex-funcionários do KGB, transformados em empresários no ramo da segurança e afins. Há muito que andam a internacionalizar os negócios e um dia o resto do mundo acorda e vê que tem (mais) uma estrutura tentacular perfeitamente instalada a minar-lhe os recursos.
Mas, até lá, a Rússia vai sendo um parceiro económico que não convém chatear...


( Anna Politkovskaia, fotografia Reuters)