17.1.07

quando os lobos uivam

a
«A noite ausenta-nos mas protege.
Fica escuro e frio para vermos as coisas às claras. Dá-nos o ânimo que não temos durantes as horas e dias pardos que afligem qualquer tipo que se queira pirar daqui. Apetece por vezes matar só por querer. Ou estremecer por não saber viver como eles querem. Tentar sozinho o que só os lobos perseguidos sabem fazer.»

'Alcântara', citado em memórias do cárcere.
a

16.1.07

sem título

a
Marta Seixas, acrílico sobre tela
(da exposição «O Céu & Cª. Ensaios sobre a Chuva», Galeria Símbolo, Porto, 1996)

15.1.07

vamos outra vez a votos...

a
Quando eu era pequena houve uma revolução a que se seguiu um sem-número de actos eleitorais, e eu gostava muito das campanhas.
Durante alguns tempos, foram uma das brincadeiras preferidas entre os catraios da vizinhança - transformávamos as casas em ateliers de pintura de cartazes que colávamos pelas redondezas, juntávamos o material iconográfico necessário e 'organizávamos' comícios, manifs, acções de rua. Guardo com especial carinho alguns episódios desses tempos: um bando de miúdos a descer a rua, bandeiras do PCP desfraldadas ao vento, enquanto colávamos cartazes do PPM ou da UDP ao som de palavras de ordem como «Uma só via: social-democracia» e o que mais à lembrança nos viesse a ocorrer. O perfeito exemplo da convivência democrática, toda a gente lá cabia.

Mudam-se os tempos... e agora não há época pré-eleitoral que não me dê vontade de fugir, tirar férias, hibernar - é triste viver num tempo em que tudo se dispersa de tal forma que já nada se discute em termos, em que se considera legítimo impingir ideias como quem vende detergentes, em que, mais do que o seu conteúdo, se valorizam as formas como se apresentam os argumentos. Tanto barulho, minha gente, e se espremido sai tão pouco...

Não haverá maneira de dispensar todo este festival?
a

13.1.07

good news

a
«(...) We believe that transparency in government activities leads to reduced corruption, better government and stronger democracies. Many governments would benefit from increased scrutiny by the world community, as well as their own people. We believe this scrutiny requires information. Historically that information has been costly - in terms of human life and human rights. Wikileaks will facilitate safety in the ethical leaking movement.

(...)

In its landmark ruling on the Pentagon Papers, the US Supreme Court ruled that "only a free and unrestrained press can effectively expose deception in government." We agree.

The ruling stated that "paramount among the responsibilities of a free press is the duty to prevent any part of the government from deceiving the people and sending them off to distant lands to die of foreign fevers and foreign shot and shell."

We believe that it is not only the people of one country that keep their government honest, but also the people of other countries who are watching that government. That is why the time has come for an anonymous global avenue for disseminating documents the public should see.»

Um fórum global para lidar com informação classificada de forma absolutamente anónima, impermeável a qualquer tipo de censura, uma Wikipedia sobre tudo aquilo que os governos e os grandes do mundo não gostam que a gente saiba.

Um serviço público à escala do planeta:

bad news

a
O Parlamento acaba de autorizar que possamos ser localizados pela polícia através dos telemóveis sem necessidade de autorização prévia de um juiz. Diz o DN que ninguém levantou objecções à coisa por não se considerar que viole a privacidade dos cidadãos.

Não é que eu tenha razões para fugir deles, mas alguém me saberá dizer se funciona com o telefone desligado?

(O que mais me admira é que muitos daqueles senhores até são do tempo em que se tinha problemas com a PIDE...)
a

12.1.07

esta cidade

a
quer eu queira
quer não queira
esta cidade
há-de ser uma fronteira
e a verdade
cada vez menos
cada vez menos
verdadeira

quer eu queira
quer não queira
no meio desta liberdade
filhos da puta
sem razão
e sem sentido

no meio da rua
escura, fria e bruta
eu luto sempre
do outro lado da luta

a polícia já tem meu nome
minha foto está no ficheiro
porque eu não me rendo
porque eu não me rendo
nem por dinheiro
nem por dinheiro

e como sou
e quero ser sempre assim
um rio que corre
sem princípio nem fim
o poder podre
dos homens normais
está a tentar
dar cabo de mim
cabo de mim

(Xutos e Pontapés, transcrição livre e de memória)
a

11.1.07

'luso-nigeriano'

Quando quis assinalar as vitórias de Francis Obikwelu nos Europeus de Atletismo com uma imagem captada no próprio estádio, acabei por ter que recorrer à BBC - os media nacionais on line não deram metade do destaque que a cadeia britânica concedeu ao feito do atleta português (13.08.06 - ninguém é ilegal!).
Tivesse ele nascido em Torre de Moncorvo, Luz de Tavira, Freixo de Espada à Cinta ou qualquer recôndito canto do império e teria tido honras de herói da lusa pátria, com toda a certeza.
Assim sendo, resta-me aproveitar o facto de Obikwelu ter sido eleito o melhor atleta europeu do ano que passou para voltar a erguer uma voz de protesto por nunca o ter visto, em órgão nenhum da nossa Imprensa, apresentado como um simples atleta português.

PS - Vale este protesto para os todos os 'luso-brasileiros', 'luso-guineenses', 'luso-seja-o-que-for' que aparecem por aí (10.07.06 - naturais, nacionais e relacionados). Envergonha-me pertencer a um povo que culturalmente tem tanta dificuldade em abarcar como seu aquilo que tem origens (aparentemente) diferentes. Talvez um dia um dos meus sonhos se cumpra e eu possa apresentar como nacionalidade... luso-dissidente!


10.1.07

andy warhol

a
Devo ter gostos estranhos, mas é um bocado difícil encontrar no YouTube as músicas que procuro.
À falta da versão original (do magnífico álbum «Hunky Dory», 1971), aqui fica um registo mais recente: à saúde do sexagenário David Bowie, que me vem acompanhando por certas noites - e certos dias - há mais de 1/4 de século.
a


a

6.1.07

post MUUIIITO optimista

a
«
We in academic medicine can either choose to use our ideas to make large sums of money for small numbers of people, or to look outwards to the global community and make affordable medicines».
Professor Sunil Shaunak
Imperial College London


Um grupo de investigadores britânicos conseguiu reformular um medicamento para a hepatite C e registar a patente. Pretendem vir entrar no mercado à margem das multinacionais farmacêuticas, apostando na produção deste e de outros medicamentos reformulados, comercializados a preços inferiores. Apelam à comunidade científica para que deixe de lhes vender as suas ideias. [BBC News]

Será que lá chegam? Conseguirão eles demonstrar que não é necessário depender dessas tentaculares empresas para a evolução do conhecimento científico ter aplicabilidade prática no mundo? Conseguiremos nós então perceber que o que pagamos a mais só serve para engordar os lucros de gigantes como a Roche, a Bayer e afins e exigir aos governantes que deixem de lhes fazer o jogo?

(Trabalhar na área da Saúde deu-me, ao longo dos anos, uma pequena noção dos inacreditáveis montantes quotidianamente envolvidos nestas coisas. E olhar para o mundo, a noção de como elas são complexas, ardilosas: verdadeiras mafias imperando à escala do planeta).
a

será fenómeno matosinhense?

a
Em Setembro fui inscrever a filha numa das piscinas municipais do concelho. Ficou em lista de espera para quatro horários diferentes. Que contactariam quando houvesse vaga, disseram.
Ontem resolvi ir saber como andava a coisa. Aparentemente, tinha desparecido dos registos. Se puder aguardar vou falar com o coordenador, disse a menina. Voltou pouco depois. Afinal tinha visto mal, o nome dela constava, sim senhor, e a melhor posição, entre as várias classes, era a 10ª. Mas... havia «uma vaguinha» que eu podia querer aproveitar.
Achei-me um tanto ou quanto idiota por não ter passado por lá há mais tempo (quantas «vaguinhas» não terão passado à frente ...)





Há uns quatro anos, requeri uma licença de habitabilidade aos serviços municipais. Demoraria 15 dias, disseram.
Fui lá um mês e meio depois - não estava pronta. Que tinham dito 15 dias, reclamei. Que não mandavam nada para despacho antes do requerente «mostrar interesse», explicou a menina, e que ia dar seguimento ao processo. Passados dois dias recebi um aviso para ir levantar a dita licença.

Alguém será capaz de me explicar por que razão nos obrigam a bisar as visitas aos serviços públicos antes de nos despacharem as coisas? Por que razão os funcionários perdem o seu tempo a atender duas vezes a mesma pessoa? Por que razão nos obrigam a faltar duas vezes ao trabalho para tratar do mesmo assunto? Por que razões nos fartamos de trabalhar e os níveis de produtividade do país continuam sempre a mesma tristeza?

foto: António Vasconcelos
a

3.1.07

parabéns

a
ao ministro da Saúde pela forma como resolveu a questão do Pedro Hispano. Não me parece que vá ter grandes problemas com a implementação do sistema no futuro.
a

1.1.07

novo ano

a


GOING ALONG (estudo)

«Just make it as if we go along
Head in the sky
Feet on the ground»

(David Byrne)


30.12.06

há 20 anos...

a
o meu papel de fumar favorito era assim:


e trazia esta advertência:




nada aconteceu?

Época de balanços. Balanço dos balanços que vou lendo: 2006, o ano em que quase nada aconteceu.
Eu diria que, internamente, alguma coisa está a mudar:

* A progressiva aproximação das regalias do estatuto da Função Pública às dos normais cidadãos e da gestão dos organismos da Administração Pública à das empresas do sector privado, além de tendencialmente nos colocar a todos em pé de igualdade, está a contribuir para o fim de muitos dos 'quintais' que se formam nos pequenos jogos de poder internos e que tanto contribuem para o emperramento dos processos e a mão-de-obra excedentária.
(Enquanto utente da Unidade de Saúde de Matosinhos desde a sua criação, tenho oportunidade de constatar as melhorias na eficiência dos serviços - da última vez que recorri à consulta de urgência, demorei meia hora entre entrar no centro de saúde, fazer a inscrição e sair com a criança devidamente vista e medicada, sem necessidade de longas esperas em salas infestadas pelos vírus e bactérias dos outros doentes. Está bem, foi uma excepção, mas em média não se está lá mais do que uma hora.)


E que, lá por fora, se vão dando muitas voltas para que as coisas continuem cada vez mais iguais:

* Os impérios medem forças, manobram aliados, cavam trincheiras. Muita gente morre. Agudiza-se o fosso. O mundo parece ter-se assumido em universos separados, e não num esforço comum para viver em conjunto.

Sinais como as recentes polémicas e restrições quanto aos símbolos religiosos no Natal deviam ser tidos mais a sério (sobretudo quando, ao fim e ao cabo, são símbolos da semente, do nascimento, um dos ciclos naturais das coisas que as culturas humanas celebram desde sempre). Respeitar os outros passa por conviver com a diferença, entre diferenças, e isto é uma coisa que se aprende.
A ignorância é uma guerra em que ganham todos os impérios, e por isso uma das em que mais investem. E em que têm vencido uma batalha atrás da outra.

(Este blog, profundamente ateu, tem um particular fascínio por presépios. E daí?)

Postas estas pequenas reflexões,

UM FELIZ 2007!

29.12.06

a terceira margem do rio

a
Milton, Caetano, Guimarães Rosa: face a este elenco, o melhor mesmo é «falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio».*



* Vinícius de Moraes, POEMA DO NATAL, a ler aqui.
a

28.12.06

e o Porto aqui tão perto...

Todos os dias, ou quase, faço o mesmo trajecto para o trabalho: de Matosinhos ao Marquês pelo miolo da cidade. Atravesso um bairro social já antigo, em tempos idos afastado do centro, depois sucessivas zonas residenciais de luxo à altura em que são construídas - Andresas, Tenente Valadim, Damião de Góis... Onde ainda há algum espaço, o cenário é sempre assim:


Volta e meia, vou até à Baixa, qual viagem à terra de ninguém.

Caminha-se para o que é mais antigo e não há rua onde se não apresente meia dúzia de casas devolutas, entaipadas, em ruína. Aqueles mesmos edifícios que por um pormenor nos azulejos, um batente, uma sacada, faziam as delícias das nossas memórias da cidade - e as verdadeiras delícias das cidades estão nos sinais deixados pelas muitas pessoas que ao longo dos séculos lhes deram realidade e corpo.



Os amigos 'estrangeiros' estranham que eu não goste de lhes mostrar o velho burgo, mas de cada vez que a isso me aventuro acabo com a sensação de que mais alguma coisa nos está a ser roubada: o espírito de uma cidade ocupada maioritariamente pelos que lá vivem, não pelos que por lá passam apressados entre as 9 e as 7.
O Porto verdadeiramente transformado em cidade de cartão-postal às horas de tirar fotografias; pela noite, e a não ser que haja algum espectáculo, todo o centro é um deserto.



Depois, de vez em quando, saltam números. Acresce que os cerca de cem mil habitantes que abandonaram o Porto são, muito provavelmente, outros tantos cem mil a entrar e a sair da cidade diariamente.
Acresce que quem se aventura a habitar o centro as mais das vezes se arrepende, ele é o trânsito a entrar pela janela o dia todo, as crianças sem espaço onde brincar...
Acresce que a maioria das pessoas com quem eu trabalho acha um absurdo haver quem conteste que o La Féria tenha nas mãos o Rivoli, quase tão estranho quanto comprar uma casa que já tenha sido habitada anteriormente.


(a primeira imagem é do António Vasconcelos, as outras de autores desconhecidos)
a

24.12.06

é natal... (5)

a
Irresistíveis, os postais de Natal do Chico da Popeline, em tirem-me deste filme.
a

18.12.06

SIM!

Pelas minhas amigas

que se viram interiormente mutiladas na sequência de abortos em parteiras de vão de escada, mais por falta de cultura que de dinheiro;
que em desespero de causa e de circunstância aceitaram praticar sexo com os ilustres clínicos que depois lhes fizeram as IVG;
que em situações de dependência viram as suas vidas em parte destruídas pelo aparecimento de filhos em plena adolescência;

Por mim.

(Em termos morais, políticos e filosóficos, o que eu gostaria de ter escrito sobre o assunto poderá ser lido aqui.)

17.12.06

um mundo de adolescentes

Reflexões a propósito de uma sociedade que cada vez mais se infantiliza:

«(...)Esta evolução põe em causa a autoridade, a tradição, o saber inerentes à condição de adulto ou de mestre. A inexistência da figura paterna nas sociedades actuais traz um grande problema à educação das crianças: não existe fundamento para a autoridade. E quando os sistemas clássicos de autoridade deixam de funcionar, vemos aparecer paródias de autoridades excêntricas ou pseudo-carismáticas, reconstituições mais ou menos autênticas de sistemas tidos como tradicionais, muitas vezes reinterpretações ideológicas das tradições, como o fundamentalismo.
Não é por acaso que vivemos uma época marcada por conflitos aparentemente religiosos. E corremos igualmente o risco de caminhar para sistemas de tipo ultra-repressivo, diria tecnológico-repressivos, fundados numa concepção de controlo permanente: poderes dotados de mil olhos e de grandes orelhas. O risco, quando a autoridade se dissipa, é que a vigilância ocupe o seu lugar».

Entrevista a Jérôme Bindé (UNESCO), aqui citada com a devida vénia ao Ministério da Educação por ter decidido retirar dos curricula do secundário a disciplina de Filosofia - aprender a pensar sobre o que nos acontece pode, de facto, ser uma actividade alienante e perigosa...

Para ler na íntegra:
a
Vers un monde d'adolescents
LE MONDE | 16.12.06
a

16.12.06

holocausto(s)



No outro lado civilizacional do globo estão uns senhores deveras feios reunidos a discutir coisas sem sentido na esperança de conseguirem dar um outro sentido ao mundo, a ver se de uma vez o encaixam nos horizontes dos seus estranhos e limitados conceitos de humanidade e ordem natural das coisas [BBC News].
Deste lado, eu gostaria de ter visto mais afinco, mais trabalho sistemático, mais interesse dos antigos aliados em divulgar massivamente os outros crimes contra a humanidade do século que passou, nomeadamente os dos milhões de pessoas igualmente assassinadas pelo regime estalinista.


Claro que é mais fácil às democracias ocidentais não ter que admitir terem-se aliado a um ditador genocida para aniquilar um outro, deixando ao primeiro a garantia de não se meterem demasiado na gestão interna do seu império.
Mas, em boa verdade, de um e de outro lado somos tão iguais nisto como em tudo não e há quem não tente manipular os factos históricos conforme pode por forma a manter uma opinião pública «informada», minimamente coesa e apoiante, garante da perpetuação dos aparelhos vigentes.

foto: trabalhos forçados num campo de concentração, URSS, anos 30

13.12.06

é natal... (3)

a



via abrangente, mais uma vez.
a

em atraso...

a
... e só para assinalar a morte de Augusto Pinochet.
Já foi tarde.
a

é natal... (2)

a
As composições e recomposições familiares também dão nisto: este ano volta o Natal à casa-mãe, com cheiro a infância e mesa grande. Sabe bem.
a

3.12.06

a

ao antónio ramos rosa
e à joni


Define-se assim um rio
ou uma vertente
- constelação ávida de carne
e de silêncio

Nada se nos cabe, é docemente
que caminhamos sobre as coisas
e a boca é farta de pequenos vidros
que se cospem lentamente entre as palavras.

Dizemos então os dias, os verbos, as sementes
como quem sabe e se procura um fim
que quando chega já não é lugar nenhum,
e sangra.
a
(1989)
a