8.1.08
ao contrário
Era eu catraia e este pequeno curso de água - o ribeiro da Riguinha - era um esgoto industrial.
A recuperação teve início há quase 20 anos, com a nova estrutura de saneamento básico do concelho, e a ele se devem os mais bonitos espaços verdes da Sra. da Hora e de Matosinhos Sul: correndo a céu aberto, as suas envolventes integram a Reserva Ecológica Nacional.
[Alguém suspeitaria que a mancha por detrás das árvores é a grande catedral do consumo cá do burgo?]
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A recuperação teve início há quase 20 anos, com a nova estrutura de saneamento básico do concelho, e a ele se devem os mais bonitos espaços verdes da Sra. da Hora e de Matosinhos Sul: correndo a céu aberto, as suas envolventes integram a Reserva Ecológica Nacional.
[Alguém suspeitaria que a mancha por detrás das árvores é a grande catedral do consumo cá do burgo?]
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4.1.08
a maldição dos pais intrometidos
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Cultivamos o individualismo mas não valorizamos a autonomia - uma das constatações quotidianas no contacto com o universo de pais de crianças do 1º ciclo.
Claro que, a médio prazo, não pode deixar de ser contraproducente, como demonstra este estudo divulgado pela BBCNews: «The curse of the meddling parent».
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Cultivamos o individualismo mas não valorizamos a autonomia - uma das constatações quotidianas no contacto com o universo de pais de crianças do 1º ciclo.
Claro que, a médio prazo, não pode deixar de ser contraproducente, como demonstra este estudo divulgado pela BBCNews: «The curse of the meddling parent».
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como as coisas simples
a
«(...)Todos estes fenómenos de degradação são aspectos negativos, aliados ao facto de o conceito dominante ser o da quantidade: mais em detrimento de melhor. É por isso que é necessária uma reforma de civilização.
(...)
Uma política de civilização não deve deixar-se hipnotizar pelo crescimento.
(...)
É preciso abandonar o objectivo do 'cada vez mais' pelo do 'cada vez melhor'. O crescimento não passa de um termo puramente quantitativo.»
Edgar Morin, em discurso directo num chat do Le Monde, ou como pôr em termos simples os grandes desígnios civilizacionais.
[Para ler na íntegra: «Edgar Morin: 'La politique de civilisation ne doit pas être hypnotisée par la croissance']
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«(...)Todos estes fenómenos de degradação são aspectos negativos, aliados ao facto de o conceito dominante ser o da quantidade: mais em detrimento de melhor. É por isso que é necessária uma reforma de civilização.
(...)
Uma política de civilização não deve deixar-se hipnotizar pelo crescimento.
(...)
É preciso abandonar o objectivo do 'cada vez mais' pelo do 'cada vez melhor'. O crescimento não passa de um termo puramente quantitativo.»
Edgar Morin, em discurso directo num chat do Le Monde, ou como pôr em termos simples os grandes desígnios civilizacionais.
[Para ler na íntegra: «Edgar Morin: 'La politique de civilisation ne doit pas être hypnotisée par la croissance']
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3.1.08
lembrete
a
Num estado de Direito, qualquer cidadão tem o direito de não cumprir as leis. Vem nos livros. O que se passa a seguir é assunto para ser tratado pelas autoridades competentes.
Confesso que me cansa este país em que toda a gente já é pelo menos jurista, médico e professor... e ultimamente acumula com a actividade de polícia.
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Confesso que me cansa este país em que toda a gente já é pelo menos jurista, médico e professor... e ultimamente acumula com a actividade de polícia.
1.1.08
é proibido fumar
a
No Reino Unido, foi de 130% o aumento de espaços ao ar livre em bares, pubs e restaurantes desde que entrou em vigor a proibição de fumar no interior destes recintos, no Verão passado. Ainda assim, a quebra no negócio da restauração tem sido significativa.
Será uma questão de tempo. Se para jantar à vontade entre amigos é preciso ficar em casa, lucram os take-away da zona. Em breve, muitos dos que a partir de hoje afixam «não fumadores» estarão a concluir que é preferível investir em sistemas de exaustão.
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No Reino Unido, foi de 130% o aumento de espaços ao ar livre em bares, pubs e restaurantes desde que entrou em vigor a proibição de fumar no interior destes recintos, no Verão passado. Ainda assim, a quebra no negócio da restauração tem sido significativa.
Será uma questão de tempo. Se para jantar à vontade entre amigos é preciso ficar em casa, lucram os take-away da zona. Em breve, muitos dos que a partir de hoje afixam «não fumadores» estarão a concluir que é preferível investir em sistemas de exaustão.
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28.12.07
benazir bhutto
a
Digamos que é um mau agouro que fica a pairar sobre o ano que se avizinha. E mais uma que ficamos a dever aos esforços de democratização do senhor Bush no reino dos muçulmanos: cada tiro, cada melro!
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Digamos que é um mau agouro que fica a pairar sobre o ano que se avizinha. E mais uma que ficamos a dever aos esforços de democratização do senhor Bush no reino dos muçulmanos: cada tiro, cada melro!
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23.12.07
a não perder...
a
«2007, ano do grande regresso dos Estados», a análise de Frédéric Lemaître publicada no «Le Monde».
a
«2007, ano do grande regresso dos Estados», a análise de Frédéric Lemaître publicada no «Le Monde».
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d. alice
a
Gostava de ter palavras, mas são poucas.
Talvez seja comum esta dificuldade em nomear a essência desprovida de acessórios, a raiz. Certo é que toda a gente à sua volta aprendeu a ser tolerante, a ter respeito pelos outros, a ver todos os homens como iguais. Mas sobretudo a ser leal. E a querer sempre chegar mais longe.
Com o tempo, acabei por chamar-lhe 'bom senso'. E é o que é.
O que não consigo é definir a onda, o feeling, a aura, o que quer que lhe chamem, que ainda hoje, quando já nem as mãos mexe e emite pouco mais do que um murmúrio, aquela senhora emana. «Esta senhora é um doce!», dizia-me há tempos um médico na Urgência do S. João.
A vida tem destas coisas: com o andar dos tempos, a dispersão geográfica e as restruturações familiares, acabamos por transpor para o seu aniversário o que quase toda a gente celebra amanhã. Mais logo, à volta da mesa, trocaremos entre nós as pequenas oferendas que destinamos àqueles com quem desde sempre traçamos um caminho que é comum. O que não deixa de ser uma merecida homenagem à minha incomparável avó.
a
«Se trago as mãos distantes do peito
É que há distância entre intenção e gesto
De tal maneira que depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto»
É que há distância entre intenção e gesto
De tal maneira que depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto»
Chico Buarque, «Fado Tropical»
Gostava de ter palavras, mas são poucas.
Talvez seja comum esta dificuldade em nomear a essência desprovida de acessórios, a raiz. Certo é que toda a gente à sua volta aprendeu a ser tolerante, a ter respeito pelos outros, a ver todos os homens como iguais. Mas sobretudo a ser leal. E a querer sempre chegar mais longe.
Com o tempo, acabei por chamar-lhe 'bom senso'. E é o que é.
O que não consigo é definir a onda, o feeling, a aura, o que quer que lhe chamem, que ainda hoje, quando já nem as mãos mexe e emite pouco mais do que um murmúrio, aquela senhora emana. «Esta senhora é um doce!», dizia-me há tempos um médico na Urgência do S. João.
A vida tem destas coisas: com o andar dos tempos, a dispersão geográfica e as restruturações familiares, acabamos por transpor para o seu aniversário o que quase toda a gente celebra amanhã. Mais logo, à volta da mesa, trocaremos entre nós as pequenas oferendas que destinamos àqueles com quem desde sempre traçamos um caminho que é comum. O que não deixa de ser uma merecida homenagem à minha incomparável avó.
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16.12.07
xmas time ii
xmas time i
[Imagens em cerâmica plástica modeladas pelos alunos da professora Filomena Moreno (4º ano), da EB Florbela Espanca, numa das manhãs mais divertidas que me lembro de ter passado nos últimos tempos.]
a
áfrica
a
«(...) Quando estudamos a ajuda pública aos países em desenvolvimento vemos que os que estão mais avançados na democracia, como o Benim, são os que receberam menos, comparados com o Gabão ou o Zaire. Isto demonstra que o discurso do Ocidente defende a democracia mas a prática não apoia os estados que a seguem.
«(...) As sociedades africanas são indisciplinadas e rebeldes. O modelo africano é mais o das civilizações rurais, fundadas sobre o debate, a discussão. Há nelas um enorme e positivo potencial contra a ordem estatal.
«(...) Quando estudamos a ajuda pública aos países em desenvolvimento vemos que os que estão mais avançados na democracia, como o Benim, são os que receberam menos, comparados com o Gabão ou o Zaire. Isto demonstra que o discurso do Ocidente defende a democracia mas a prática não apoia os estados que a seguem.
«(...) As sociedades africanas são indisciplinadas e rebeldes. O modelo africano é mais o das civilizações rurais, fundadas sobre o debate, a discussão. Há nelas um enorme e positivo potencial contra a ordem estatal.
«(...) A África contenta-se em ter chefes, quando tem necessidade é de estruturas. A cimeira [UE-África] foi ambígua, neste plano. Tratou com os chefes, pensando estar a tratar com os estados.»
Elikia M'Bokolo, historiador, director de estudos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris em entrevista ao «Público» [sem link]
a
9.12.07
3.12.07
é mel*
a

É muito bom à volta de um projecto poder reunir amigos, de há 20 anos e mais recentes, mas todos parte daquela gente que nos deixa marcas indeléveis vida fora.

É muito bom chegar ao dia seguinte e ver que o balanço foi positivo para toda a gente.

*(como diria a joni)

É muito bom à volta de um projecto poder reunir amigos, de há 20 anos e mais recentes, mas todos parte daquela gente que nos deixa marcas indeléveis vida fora.
É muito bom anunciarmos esse projecto e vermos aparecer gente de todos os cantos das nossas memórias, da professora de liceu ao namorado da adolescência.

É muito bom chegar ao dia seguinte e ver que o balanço foi positivo para toda a gente.

We're on the road: as produções conjuntas O Carteiro/mcponto são experiência a repetir.
encontro no Carteiro, 1 de Dezembro de 2007
(fotos: Antonio Sabler)
a
(fotos: Antonio Sabler)
29.11.07
portugal, 1967
a
O meu país, no ano em que eu nasci.
A minha memória começa uns anos depois, mas não difere do ambiente do filme: é-me difícil transmitir a sensação de cinzento (nas pessoas, nas cidades, nos costumes) que acompanha o que recordo dos primeiros anos de infância.
[Com o cheiro a Natal, vinham as intermináveis sequências de combatentes no Ultramar a desejar boas-festas na televisão: «Adeus e até ao meu regresso».
No 10 de Junho, condecoravam-se os mortos e estropiados.
Um dia percebi: eu em pânico, não fossem eles lembrar-se de chamar o meu pai 'para soldadinho'...]
O meu país, no ano em que eu nasci.
A minha memória começa uns anos depois, mas não difere do ambiente do filme: é-me difícil transmitir a sensação de cinzento (nas pessoas, nas cidades, nos costumes) que acompanha o que recordo dos primeiros anos de infância.
[Com o cheiro a Natal, vinham as intermináveis sequências de combatentes no Ultramar a desejar boas-festas na televisão: «Adeus e até ao meu regresso».
No 10 de Junho, condecoravam-se os mortos e estropiados.
Um dia percebi: eu em pânico, não fossem eles lembrar-se de chamar o meu pai 'para soldadinho'...]
27.11.07
les poissons
a
É como se fosse por fases, há uns anos andava tudo amorfo, agora anda tudo militante.
«Qui voit le ciel dans l'eau, voit les poissons sur les arbres», diz o velho ditado chinês.
a
É como se fosse por fases, há uns anos andava tudo amorfo, agora anda tudo militante.
«Qui voit le ciel dans l'eau, voit les poissons sur les arbres», diz o velho ditado chinês.
a
18.11.07
11.11.07
porto, porto
a
Há um Porto de que poucas notícias nos chegam, quem é de fora não entra, quem é de dentro não gosta de falar.
No Aleixo, foi recentemente detida uma traficante de relevo, que trabalhava há mais de 15 anos sem que ninguém lhe conseguisse deitar a mão. Ressalve-se que grande parte disto decorre das características arquitectónicas dos blocos que constituem o bairro - seria absurdo imaginar uma rusga policial capaz de encontrar flagrantes quando para entrar nos domicílios é preciso subir muitos andares pelas escadas e passar despercebido em cada patamar.
Nas torres do Aleixo, em cada piso, os patamares são como os pátios comuns de antigamente: servem para secar a roupa, às vezes para instalar o tanque, para os velhos conversarem à soleira, para as crianças pequenas ensaiarem as primeiras correrias. Há mesmo quem delimite o espaço que rodeia a porta de entrada com redes e cancelas.
Nas torres do Aleixo, apesar da altura, há muitos anos que não há elevadores. Quando havia, eram usados como urinóis públicos por dezenas de pessoas, cabines e portas acabavam por não resistir.
As torres do Aleixo foram previstas para a construção de habitação de luxo em local privilegiado, junto ao rio. Deu-se entretanto a revolução, e a volumetria inicialmente aprovada acabou por ser adaptada a um projecto de habitação social destinada a abrigar a população da zona da Ribeira/Barredo, malha urbana com características de elevadíssima depressão económica e social. Vai daí, em cada piso construíram-se múltiplas habitações unifamiliares pequenas, o que faz com que um só andar abrigue tanta gente como um prédio de habitação social habitual.
As gentes carenciadas da Ribeira tiveram nova casa, sim senhor, mas nem por isso tiveram nova vida: é sabido que atrás da miséria vem a vida de expediente, do contrabando, do roubo, da prostituição, e os cursos de alfabetização não chegaram para abrir grandes caminhos.
Depois veio o boom das drogas por toda a cidade e a respectiva reacção policial. Foi uma questão de tempo: à medida que outros sítios foram sendo mais ou menos controlados e os bairros de lata demolidos, a quase inexpugnabilidade das torres do Aleixo fez delas o local onde a droga nunca faltava e onde toda a gente do meio acabava, mais cedo ou mais tarde, por se ir abastecer. Hoje, é o que (não) se vê.
O Aleixo faz do Porto um absurdo - ilha de miséria humana rodeada por condomínios de luxo protegidos por dezenas de seguranças 24 horas ao dia. A 100 ou 200 metros, até se consegue fazer de conta que não existe ali.
O Aleixo é um belíssimo exemplo de uma organização social espontânea de sucesso, comunidade em autogestão que a cada passo encontra as respostas adequadas à sua sobrevivência. Abandono escolar? E isso é problema? Isso é prestígio, isso é lucro - aos adolescentes entregam agora os traficantes a segurança do local. É eficaz: são doidos, por vezes inimputáveis, não têm medida de consequências. «É pior que favela carioca», diz quem cresceu numa delas.
Vem tudo isto a propósito do que me contaram um destes dias. Será o segundo caso, este ano, de toxicodependentes alvejados a tiro quando estão nas filas de espera (sim, às vezes as filas de 'agarrados' estendem-se pela rua, pior que as dos embrulhos de Natal no Continente, normalmente constituídas por indivíduos semidesfeitos em pleno síndrome de abstinência). Motivo para as duas mortes? Algum desses adolescentes armados um pouco mais doido resolveu praticar tiro ao alvo lá do alto...
[Há uns 15 anos, um antigo colega de liceu morreu lá esfaqueado por causa de... 2$50. Foi notícia no jornal.]
O Aleixo começará a resolver-se no dia em decidirem deitá-lo abaixo e iniciar tudo de novo, inserindo os seus habitantes em estruturas urbanas mais pequenas e permeáveis ao que as rodeia.
O Aleixo começará a resolver-se no dia em que completar o Ensino Secundário não seja o feito de uma vida para os seus adolescentes.
O Aleixo não terá solução possível enquanto o Porto não perceber que lhe pertence, tanto quanto a Torre dos Clérigos, a Casa da Música ou a Câmara Municipal.
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Há um Porto de que poucas notícias nos chegam, quem é de fora não entra, quem é de dentro não gosta de falar.
No Aleixo, foi recentemente detida uma traficante de relevo, que trabalhava há mais de 15 anos sem que ninguém lhe conseguisse deitar a mão. Ressalve-se que grande parte disto decorre das características arquitectónicas dos blocos que constituem o bairro - seria absurdo imaginar uma rusga policial capaz de encontrar flagrantes quando para entrar nos domicílios é preciso subir muitos andares pelas escadas e passar despercebido em cada patamar.
Nas torres do Aleixo, em cada piso, os patamares são como os pátios comuns de antigamente: servem para secar a roupa, às vezes para instalar o tanque, para os velhos conversarem à soleira, para as crianças pequenas ensaiarem as primeiras correrias. Há mesmo quem delimite o espaço que rodeia a porta de entrada com redes e cancelas.
Nas torres do Aleixo, apesar da altura, há muitos anos que não há elevadores. Quando havia, eram usados como urinóis públicos por dezenas de pessoas, cabines e portas acabavam por não resistir.
As torres do Aleixo foram previstas para a construção de habitação de luxo em local privilegiado, junto ao rio. Deu-se entretanto a revolução, e a volumetria inicialmente aprovada acabou por ser adaptada a um projecto de habitação social destinada a abrigar a população da zona da Ribeira/Barredo, malha urbana com características de elevadíssima depressão económica e social. Vai daí, em cada piso construíram-se múltiplas habitações unifamiliares pequenas, o que faz com que um só andar abrigue tanta gente como um prédio de habitação social habitual.
As gentes carenciadas da Ribeira tiveram nova casa, sim senhor, mas nem por isso tiveram nova vida: é sabido que atrás da miséria vem a vida de expediente, do contrabando, do roubo, da prostituição, e os cursos de alfabetização não chegaram para abrir grandes caminhos.
Depois veio o boom das drogas por toda a cidade e a respectiva reacção policial. Foi uma questão de tempo: à medida que outros sítios foram sendo mais ou menos controlados e os bairros de lata demolidos, a quase inexpugnabilidade das torres do Aleixo fez delas o local onde a droga nunca faltava e onde toda a gente do meio acabava, mais cedo ou mais tarde, por se ir abastecer. Hoje, é o que (não) se vê.
O Aleixo faz do Porto um absurdo - ilha de miséria humana rodeada por condomínios de luxo protegidos por dezenas de seguranças 24 horas ao dia. A 100 ou 200 metros, até se consegue fazer de conta que não existe ali.
O Aleixo é um belíssimo exemplo de uma organização social espontânea de sucesso, comunidade em autogestão que a cada passo encontra as respostas adequadas à sua sobrevivência. Abandono escolar? E isso é problema? Isso é prestígio, isso é lucro - aos adolescentes entregam agora os traficantes a segurança do local. É eficaz: são doidos, por vezes inimputáveis, não têm medida de consequências. «É pior que favela carioca», diz quem cresceu numa delas.
Vem tudo isto a propósito do que me contaram um destes dias. Será o segundo caso, este ano, de toxicodependentes alvejados a tiro quando estão nas filas de espera (sim, às vezes as filas de 'agarrados' estendem-se pela rua, pior que as dos embrulhos de Natal no Continente, normalmente constituídas por indivíduos semidesfeitos em pleno síndrome de abstinência). Motivo para as duas mortes? Algum desses adolescentes armados um pouco mais doido resolveu praticar tiro ao alvo lá do alto...
[Há uns 15 anos, um antigo colega de liceu morreu lá esfaqueado por causa de... 2$50. Foi notícia no jornal.]
O Aleixo começará a resolver-se no dia em decidirem deitá-lo abaixo e iniciar tudo de novo, inserindo os seus habitantes em estruturas urbanas mais pequenas e permeáveis ao que as rodeia.
O Aleixo começará a resolver-se no dia em que completar o Ensino Secundário não seja o feito de uma vida para os seus adolescentes.
O Aleixo não terá solução possível enquanto o Porto não perceber que lhe pertence, tanto quanto a Torre dos Clérigos, a Casa da Música ou a Câmara Municipal.
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10.11.07
pedofilia militante
a
Estão no meio de nós, mas nem sempre se vê.
Ignorava que o direito à pedofilia fosse uma causa pela qual há quem milite organizada e mais ou menos abertamente, mas acho que já nada espanta na cultura de vale tudo que impera por aí.
A Wikileaks acaba de divulgar uma comunicação interna do FBI, datada de Janeiro passado, que revela alguns dos símbolos que pedófilos organizados usam para se identificar entre si.
Pode ser consultada aqui.
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Estão no meio de nós, mas nem sempre se vê.
Ignorava que o direito à pedofilia fosse uma causa pela qual há quem milite organizada e mais ou menos abertamente, mas acho que já nada espanta na cultura de vale tudo que impera por aí.
A Wikileaks acaba de divulgar uma comunicação interna do FBI, datada de Janeiro passado, que revela alguns dos símbolos que pedófilos organizados usam para se identificar entre si.
Pode ser consultada aqui.
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4.11.07
arquitecturas
À parte ter um piso térreo cujas galerias ignoram tanto as características do clima quanto a orientação da luz,
à parte ter um revestimento que em apenas ano e meio já começa a mostrar sinais de desgaste,
à parte algumas inflitrações no interior,
talvez por este ângulo se perceba por que não consigo gostar do raio do edifício que resolveram plantar bem no centro da cidade.
(Em boa verdade, cada vez que o vejo acho que tem cara é de centro de saúde...)
a
à parte ter um revestimento que em apenas ano e meio já começa a mostrar sinais de desgaste,
à parte algumas inflitrações no interior,
talvez por este ângulo se perceba por que não consigo gostar do raio do edifício que resolveram plantar bem no centro da cidade.
(Em boa verdade, cada vez que o vejo acho que tem cara é de centro de saúde...)
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29.10.07
se eu fosse...
a
se eu fosse gente normal, não desligava do mundo por ter chegado um novo lote de semipreciosas e me ter perdido a prospectar as suas cores, nuances, combinações e equilíbrios durante mais de 15 dias;
se eu fosse gente normal, não me esquecia de comer nem de dormir a cada vez que a cabeça se vira para exercícios criativos, via o telejornal de vez em quando e mantinha o blog mais ou menos em dia;
se eu fosse gente normal, não era a trabalhar com as pedras que descobria a solução para as mobílias de brincar, e não pousava os alicates para mergulhar nos feltros por mais uns dias;
se eu fosse gente normal, interrompia o trabalho volta e meia, e não apenas quando o manusear sai trôpego e dorido e o gesto vai perdendo a precisão e anunciando a possibilidade de tendinites e lesões afins;
se eu fosse gente normal, não me metia a trabalhar com um punhado de artistas ainda mais tolos do que eu!
a
se eu fosse gente normal, não me esquecia de comer nem de dormir a cada vez que a cabeça se vira para exercícios criativos, via o telejornal de vez em quando e mantinha o blog mais ou menos em dia;
se eu fosse gente normal, não era a trabalhar com as pedras que descobria a solução para as mobílias de brincar, e não pousava os alicates para mergulhar nos feltros por mais uns dias;
se eu fosse gente normal, interrompia o trabalho volta e meia, e não apenas quando o manusear sai trôpego e dorido e o gesto vai perdendo a precisão e anunciando a possibilidade de tendinites e lesões afins;
se eu fosse gente normal, não me metia a trabalhar com um punhado de artistas ainda mais tolos do que eu!
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23.10.07
a ver vamos...
a
Ao fim de quatro anos, o Governo da Birmânia finalmente autoriza a entrada de um observador das Nações Unidas para os direitos humanos [BBCNews].
PS - Continua um mistério que quase ninguém se referira ao facto de aquele país ser um dos grandes produtores mundiais de heroína, imediatamente atrás do Afeganistão. É esse o dinheiro que sustenta a junta. E é esse o dinheiro que é lavado em Singapura.
a
Ao fim de quatro anos, o Governo da Birmânia finalmente autoriza a entrada de um observador das Nações Unidas para os direitos humanos [BBCNews].
PS - Continua um mistério que quase ninguém se referira ao facto de aquele país ser um dos grandes produtores mundiais de heroína, imediatamente atrás do Afeganistão. É esse o dinheiro que sustenta a junta. E é esse o dinheiro que é lavado em Singapura.
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