13.2.08
espírito olímpico
a
Os atletas que integram as delegações olímpicas da Bélgica, Nova Zelândia e Reino Unido estão a ser forçados ao compromisso de não se pronunciarem sobre questões incómodas para o Governo chinês durante os jogos.
Entretanto, Spielberg demite-se de conselheiro artístico por causa do Darfur. Só lamento que não o tenha feito também por causa dos chineses (e dos tibetanos, e dos birmaneses...)
a
Os atletas que integram as delegações olímpicas da Bélgica, Nova Zelândia e Reino Unido estão a ser forçados ao compromisso de não se pronunciarem sobre questões incómodas para o Governo chinês durante os jogos.
Entretanto, Spielberg demite-se de conselheiro artístico por causa do Darfur. Só lamento que não o tenha feito também por causa dos chineses (e dos tibetanos, e dos birmaneses...)
a
12.2.08
sharia
a
A história anda nos jornais há uns dias, e desde o primeiro minuto tive a sensação de que algo não batia certo. Francamente, parece um bocado absurdo um chefe da Igreja Anglicana defender a existência de tribunais religiosos islâmicos em qualquer parte do mundo, quanto mais no Reino Unido.
Afinal não contaram tudo.
Os tribunais islâmicos existem em território britânico desde 1982, em paralelo com a Justiça oficial do reino. Serão uma espécie de tribunais arbitrais - qualquer um pode recorrer a um juízo comum sempre que queira - que regulam sobretudo questões como acordos de divórcio e custódia de crianças, negócios e afins. Também existem tribunais hebraicos. Claro que prevalece sempre a lei geral, mas muitas vezes as partes preferem recorrer a mediações mais de acordo com os seus costumes tradicionais.
Rowan Williams limita-se a defender a sua existência por constatar que são muito mais eficazes quanto à efectiva aceitação das decisões pelos membros das respectivas comunidades. E a achar que são fundamentais para a pacificação social.
Vistas as coisas em contexto, tem outro sentido. Mas sem contexto vende mais...
«'Banglatown', au coeur de Londres, défend les tribunaux islamiques», Le Monde
a
Afinal não contaram tudo.
Os tribunais islâmicos existem em território britânico desde 1982, em paralelo com a Justiça oficial do reino. Serão uma espécie de tribunais arbitrais - qualquer um pode recorrer a um juízo comum sempre que queira - que regulam sobretudo questões como acordos de divórcio e custódia de crianças, negócios e afins. Também existem tribunais hebraicos. Claro que prevalece sempre a lei geral, mas muitas vezes as partes preferem recorrer a mediações mais de acordo com os seus costumes tradicionais.
Rowan Williams limita-se a defender a sua existência por constatar que são muito mais eficazes quanto à efectiva aceitação das decisões pelos membros das respectivas comunidades. E a achar que são fundamentais para a pacificação social.
Vistas as coisas em contexto, tem outro sentido. Mas sem contexto vende mais...
«'Banglatown', au coeur de Londres, défend les tribunaux islamiques», Le Monde
a
os EUA na ONU
a
«Set up by the Security Council in 1999 at the behest of the United States, but greatly expanded after the September 2001 terrorist attacks, the so-called “consolidated list” includes 370 individuals and 112 outfits suspected of having links with the Taliban or al-Qaeda. All are subject to a world-wide freeze on their assets, save for basic living expenses, along with a total travel ban outside their country of residence.
Getting onto the list is relatively easy, requiring a unanimous vote by the Security Council's sanctions committee (identical in membership to the Council itself). Any UN member state can submit a name.
Getting off is a lot more difficult. Requests for delisting have to be made either directly to the sanctions committee or through the affected person's country of birth or residence, and the burden of proof lies with the petitioner. The petitioner has to convince the same people who previously held him to be guilty that he is innocent—a particularly onerous task when he has no access to the information that led to his inclusion on the list in the first place. In the list's eight-year history, only 11 people and 24 organisations have been removed.» [The Economist]
No Tribunal do Santo Ofício, o princípio era o mesmo. Ao acusado competia adivinhar por que actos tinha sido denunciado e a identidade do delator, sendo esta a única forma de provar estar inocente.
Estava-se então em pleno Absolutismo, e não havia grande distinção entre as esferas dos poderes político e judicial. Seria suposto ter-se avançado mais um bocadinho.
O Tribunal Europeu terá agora de se pronunciar sobre o assunto. Aguardemos serenamente...
nota: em 1999, se bem se lembram, o chefe dos polícias era um tal senhor Clinton.
a
«Set up by the Security Council in 1999 at the behest of the United States, but greatly expanded after the September 2001 terrorist attacks, the so-called “consolidated list” includes 370 individuals and 112 outfits suspected of having links with the Taliban or al-Qaeda. All are subject to a world-wide freeze on their assets, save for basic living expenses, along with a total travel ban outside their country of residence.
Getting onto the list is relatively easy, requiring a unanimous vote by the Security Council's sanctions committee (identical in membership to the Council itself). Any UN member state can submit a name.
Getting off is a lot more difficult. Requests for delisting have to be made either directly to the sanctions committee or through the affected person's country of birth or residence, and the burden of proof lies with the petitioner. The petitioner has to convince the same people who previously held him to be guilty that he is innocent—a particularly onerous task when he has no access to the information that led to his inclusion on the list in the first place. In the list's eight-year history, only 11 people and 24 organisations have been removed.» [The Economist]
No Tribunal do Santo Ofício, o princípio era o mesmo. Ao acusado competia adivinhar por que actos tinha sido denunciado e a identidade do delator, sendo esta a única forma de provar estar inocente.
Estava-se então em pleno Absolutismo, e não havia grande distinção entre as esferas dos poderes político e judicial. Seria suposto ter-se avançado mais um bocadinho.
O Tribunal Europeu terá agora de se pronunciar sobre o assunto. Aguardemos serenamente...
nota: em 1999, se bem se lembram, o chefe dos polícias era um tal senhor Clinton.
a
11.2.08
são rosas, senhor
a
Na Arábia Saudita, e por uns dias, o vermelho foi banido, conta a BBCNews. As lojas estão proibidas de vender objectos, flores ou mesmo de usar papel de embrulho com essa cor. Assim se pretende garantir que ninguém fuja aos preceitos islâmicos oficiais, ousando assinalar o Dia de S. Valentim.

Parece que a proibição já é costume, pelo que os sauditas também já se habituaram a iludi-la. Entretanto, o preço das rosas vermelhas disparou no mercado negro.
a

Parece que a proibição já é costume, pelo que os sauditas também já se habituaram a iludi-la. Entretanto, o preço das rosas vermelhas disparou no mercado negro.
a
obama
a
Ok, o homem parece ter nascido fadado e é obviamente brilhante. E o mundo inteiro precisa mesmo que a coisa dê uma volta.
Agora, ajusta-se tudo tão bem - a figura, o discurso, o movimento, as circunstâncias - que eu não consigo deixar de ficar com uma pulga atrás da orelha... será que há mesmo consistência?
Quanto ao país onde tudo isto acontece e às suas contradições, calhou de ver esta semana dois comentários esclarecedores. Em primeiro, Frank Zappa, nos anos 80: «Let´s not be to rough about our ignorance. After all, it's something that makes America great!». Em segundo, Lou Reed, há uns cinco anos: «Well, I've never been able to figure out the United States...»
a
Agora, ajusta-se tudo tão bem - a figura, o discurso, o movimento, as circunstâncias - que eu não consigo deixar de ficar com uma pulga atrás da orelha... será que há mesmo consistência?
Quanto ao país onde tudo isto acontece e às suas contradições, calhou de ver esta semana dois comentários esclarecedores. Em primeiro, Frank Zappa, nos anos 80: «Let´s not be to rough about our ignorance. After all, it's something that makes America great!». Em segundo, Lou Reed, há uns cinco anos: «Well, I've never been able to figure out the United States...»
a
10.2.08
jardim suspenso
a
No Outono plantam-se os bolbos, e depois passam-se meses sem que se deite mãos à terra. Com o fim do Inverno chega a altura.
As frésias e o jasmim florescem nos próximos dias. As tulipas estão a rebentar. A gardénia tem casa nova, aparentemente estava a ser vítima de um atrofiamento da raiz.
No lado de dentro, foi mais trabalhoso: um pequeno paraíso subtropical, a julgar pela forma como crescem. Mas também está tudo a postos para enfrentar a Primavera.
Está bem, uma pequena selva na sala é um hobby, mas é também uma mais-valia doméstica considerável. Há a estética e o efeito relaxante, mas há sobretudo a purificação do ar.
PS - Diz o povo que «Fevereiro quente traz o diabo no ventre». Espero que nenhuma intempérie me venha dar cabo do trabalho, mais para a frente...
a
As frésias e o jasmim florescem nos próximos dias. As tulipas estão a rebentar. A gardénia tem casa nova, aparentemente estava a ser vítima de um atrofiamento da raiz.No lado de dentro, foi mais trabalhoso: um pequeno paraíso subtropical, a julgar pela forma como crescem. Mas também está tudo a postos para enfrentar a Primavera.
Está bem, uma pequena selva na sala é um hobby, mas é também uma mais-valia doméstica considerável. Há a estética e o efeito relaxante, mas há sobretudo a purificação do ar.
PS - Diz o povo que «Fevereiro quente traz o diabo no ventre». Espero que nenhuma intempérie me venha dar cabo do trabalho, mais para a frente...
a
9.2.08
6.2.08
5.2.08
detalhes
a
Passando a publicidade, no Continente de Matosinhos (e imagino que nos outros), há muito que os sacos não são de plástico, mas de um material biodegradável obtido salvo erro a partir do milho.
A superfície é menos resistente, mas cumprem na perfeição as funções primordiais dos sacos de supermercado: trazer as compras e pôr o lixo.
Permitem manter velhos hábitos livres de pesos na consciência.
a
Passando a publicidade, no Continente de Matosinhos (e imagino que nos outros), há muito que os sacos não são de plástico, mas de um material biodegradável obtido salvo erro a partir do milho.
A superfície é menos resistente, mas cumprem na perfeição as funções primordiais dos sacos de supermercado: trazer as compras e pôr o lixo.
Permitem manter velhos hábitos livres de pesos na consciência.
a
doce lar
a
Mudanças no escritório, que cá em casa inclui um 'cantinho infantil'.
- Ó mãe, está perfeito! Assim até pareces uma secretária e eu é que pareço a chefe!
a
Mudanças no escritório, que cá em casa inclui um 'cantinho infantil'.
- Ó mãe, está perfeito! Assim até pareces uma secretária e eu é que pareço a chefe!
a
4.2.08
ora aí está!
a
«Claro que é engraçado este jornalismo de ASAE numa eterna busca de um Watergate com migas à moda da Guarda. É engraçado mas não tem piada.»
«Claro que é engraçado este jornalismo de ASAE numa eterna busca de um Watergate com migas à moda da Guarda. É engraçado mas não tem piada.»
Mário Crespo, JN
a
3.2.08
journey under the skin
Eu andava mais atrás de «Spirit» ou de «Old England», mas acabei por dar com esta magnífica versão ao vivo de «The Pan Within». «A Pagan Place» e «This is the Sea», de resto, são dois álbuns que colocam os Waterboys no centro do que de melhor se fez na década de 80. No tempo em que ainda cá estávamos todos...
a
regicídio
a
Quando eu era criança, vivia-se num mundo de metáforas. Impedidas de se exprimir livre e directamente, as pessoas usavam um sem-número de símbolos para o fazer por vias travessas. Um deles era o 5 de Outubro, a Implantação da República enquanto vitória do povo sobre o opressor, e participar em acções públicas comemorativas era um acto de resistência.
Os episódios dos últimos dias têm o dom de demonstrar o quanto muitos daqueles que nos representam continuam presos a realidades formais que já não existem.
Acho natural que isso possa acontecer na geração dos que por lá passaram, para alguns é estrutural. Entre os que vieram depois, no entanto, faz-me confusão não perceberem que o andar da história também se faz com mitos, e são necessários, mas que só se cresce verdadeiramente quando se chega ao tempo em que acabam por cair.
Querer fechar os olhos à realidade histórica e à complexidade das coisas só contribui para perpetuar gerações acéfalas, constituídas por camadas desprovidas de juízo crítico em relação às suas próprias acções, enquanto parte de um colectivo e enquanto indivíduos.
Bem vistas as coisas, não se distancia muito do mundo dividido em bons e maus, à velha maneira do raciocínio simplista tão caro ao presidente norte-americano.
a
Quando eu era criança, vivia-se num mundo de metáforas. Impedidas de se exprimir livre e directamente, as pessoas usavam um sem-número de símbolos para o fazer por vias travessas. Um deles era o 5 de Outubro, a Implantação da República enquanto vitória do povo sobre o opressor, e participar em acções públicas comemorativas era um acto de resistência.
Os episódios dos últimos dias têm o dom de demonstrar o quanto muitos daqueles que nos representam continuam presos a realidades formais que já não existem.
Acho natural que isso possa acontecer na geração dos que por lá passaram, para alguns é estrutural. Entre os que vieram depois, no entanto, faz-me confusão não perceberem que o andar da história também se faz com mitos, e são necessários, mas que só se cresce verdadeiramente quando se chega ao tempo em que acabam por cair.
Querer fechar os olhos à realidade histórica e à complexidade das coisas só contribui para perpetuar gerações acéfalas, constituídas por camadas desprovidas de juízo crítico em relação às suas próprias acções, enquanto parte de um colectivo e enquanto indivíduos.
Bem vistas as coisas, não se distancia muito do mundo dividido em bons e maus, à velha maneira do raciocínio simplista tão caro ao presidente norte-americano.
a
1.2.08
trabalhadores-fantasma
a
«Eram responsáveis pela limpeza nas esquadras da PSP há anos. Recebiam vencimento, explicado num recibo igual aos dos agentes, e tinham direito a subsídio de Natal e de férias.
Em Dezembro, começaram a receber cartas da Direcção Nacional da PSP comunicando-lhes que estavam dispensadas e que o "contrato não escrito" celebrado com a polícia era "nulo". Portanto, "não há lugar à reposição de quaisquer quantias pagas pelo tempo prestado". São 320 pessoas em todo o país em risco de ir para a rua sem um tostão.» [«Público», sem link]
A administração pública está cheia deste tipo de contratos de trabalho nulos e o problema não está em não serem escritos. As regras que todos conhecemos em relação aos privados não são as mesmas para o Estado. É um emaranhado de diplomas de que tive conhecimento quando estudei a hipótese de pressionar o IPS quanto à legalização do meu próprio contrato de trabalho.
As leis, entretanto, sofreram alterações e já dão a hipótese de legalizar as situações com contratos individuais de trabalho, mas nenhuma instituição o tem feito. Optam por contratar os mesmos trabalhadores através de empresas de prestação de serviços ou por fazer de conta que não existem, deixando-os numa espécie de limbo em que se aplica a legislação que, a cada altura, lhes é mais conveniente.
Já tive notícia de outras queixas judiciais, mas a título individual. Uma coisa é certa: se as decisões forem favoráveis aos trabalhadores, vai haver um grande corrupio. E no seio de muitas instituições, muito boa gente vai ter que engolir em seco.
a
«Eram responsáveis pela limpeza nas esquadras da PSP há anos. Recebiam vencimento, explicado num recibo igual aos dos agentes, e tinham direito a subsídio de Natal e de férias.
Em Dezembro, começaram a receber cartas da Direcção Nacional da PSP comunicando-lhes que estavam dispensadas e que o "contrato não escrito" celebrado com a polícia era "nulo". Portanto, "não há lugar à reposição de quaisquer quantias pagas pelo tempo prestado". São 320 pessoas em todo o país em risco de ir para a rua sem um tostão.» [«Público», sem link]
A administração pública está cheia deste tipo de contratos de trabalho nulos e o problema não está em não serem escritos. As regras que todos conhecemos em relação aos privados não são as mesmas para o Estado. É um emaranhado de diplomas de que tive conhecimento quando estudei a hipótese de pressionar o IPS quanto à legalização do meu próprio contrato de trabalho.
As leis, entretanto, sofreram alterações e já dão a hipótese de legalizar as situações com contratos individuais de trabalho, mas nenhuma instituição o tem feito. Optam por contratar os mesmos trabalhadores através de empresas de prestação de serviços ou por fazer de conta que não existem, deixando-os numa espécie de limbo em que se aplica a legislação que, a cada altura, lhes é mais conveniente.
Já tive notícia de outras queixas judiciais, mas a título individual. Uma coisa é certa: se as decisões forem favoráveis aos trabalhadores, vai haver um grande corrupio. E no seio de muitas instituições, muito boa gente vai ter que engolir em seco.
a
«Castro, l'infidèle»
a
«Trata-se de uma biografia, de uma longa reportagem, de um romance real ou de uma obra de carácter histórico? Talvez um casamento entre todos estes géneros. De entre os múltiplos obstáculos que encontrei pelo caminho, um dos maiores foi sem dúvida o próprio nome do comandante Castro. 'Fidel' é, com efeito, uma palavra armadilhada, que evoca uma proximidade e um parentesco pouco propícios à visão distante e neutra. Mesmo os mais virulentos entre os exilados de Miami, os que gostariam de o ver na cadeira eléctrica, o tratam por Fidel como se falassem de um primo. Ora, Fidel Castro não tem espírito de família. E também não é um homem muito fiel. O único domínio em que nunca falhou, nunca cedeu e nunca mentiu é o da defesa encarniçada da sua própria glória.»
Um título genial. Uma abordagem interessante. Um preço mais que de saldo (5€). Um livro curiosíssimo.
O francês Serge Raffy - jornalista, escritor e argumentista - fez uma investigação minuciosa, mas não se deteve nos factos: recolheu também impressões, juízos mais ou menos especulativos, conclusões mais ou menos controversas. E não se coíbe de acrescentar os seus raciocínios, nem de imaginar ou recriar algumas cenas.
Mas fá-lo com uma escrita transparente e não há momento em que se não distinga, com toda a facilidade, entre aquilo que se sabe que se passou e aquilo que se pensa poder ter-se passado.
À parte o retrato do ditador, à parte as tricas políticas, à parte a viagem pelos ambientes de um século de história cubana, «Castro, l'infidèle» retrata mais de 50 anos de eficacíssima manipulação da opinião pública à escala do globo - área em que o comandante é de facto um verdadeiro génio.
Por outro lado, responde a uma interrogação que anda no ar desde há uns tempos. Não, Raúl não é reformista. Será mesmo mais duro que o irmão, de quem sempre foi braço direito.
O livro foi publicado em 2003, era Fidel já um homem a debater-se com os problemas da velhice e das doenças, vivendo mais ou menos em retiro na companhia da mulher que durante muitos anos manteve secreta. Não perdeu em actualidade: à história pouco mais faltará acrescentar além da data da sua morte.
a
«Trata-se de uma biografia, de uma longa reportagem, de um romance real ou de uma obra de carácter histórico? Talvez um casamento entre todos estes géneros. De entre os múltiplos obstáculos que encontrei pelo caminho, um dos maiores foi sem dúvida o próprio nome do comandante Castro. 'Fidel' é, com efeito, uma palavra armadilhada, que evoca uma proximidade e um parentesco pouco propícios à visão distante e neutra. Mesmo os mais virulentos entre os exilados de Miami, os que gostariam de o ver na cadeira eléctrica, o tratam por Fidel como se falassem de um primo. Ora, Fidel Castro não tem espírito de família. E também não é um homem muito fiel. O único domínio em que nunca falhou, nunca cedeu e nunca mentiu é o da defesa encarniçada da sua própria glória.»
Serge Raffy, «Castro, l'infidèle», introdução
Um título genial. Uma abordagem interessante. Um preço mais que de saldo (5€). Um livro curiosíssimo.
O francês Serge Raffy - jornalista, escritor e argumentista - fez uma investigação minuciosa, mas não se deteve nos factos: recolheu também impressões, juízos mais ou menos especulativos, conclusões mais ou menos controversas. E não se coíbe de acrescentar os seus raciocínios, nem de imaginar ou recriar algumas cenas.
Mas fá-lo com uma escrita transparente e não há momento em que se não distinga, com toda a facilidade, entre aquilo que se sabe que se passou e aquilo que se pensa poder ter-se passado.
À parte o retrato do ditador, à parte as tricas políticas, à parte a viagem pelos ambientes de um século de história cubana, «Castro, l'infidèle» retrata mais de 50 anos de eficacíssima manipulação da opinião pública à escala do globo - área em que o comandante é de facto um verdadeiro génio.
Por outro lado, responde a uma interrogação que anda no ar desde há uns tempos. Não, Raúl não é reformista. Será mesmo mais duro que o irmão, de quem sempre foi braço direito.
O livro foi publicado em 2003, era Fidel já um homem a debater-se com os problemas da velhice e das doenças, vivendo mais ou menos em retiro na companhia da mulher que durante muitos anos manteve secreta. Não perdeu em actualidade: à história pouco mais faltará acrescentar além da data da sua morte.
a
31.1.08
no comments
a
«A guerra do Líbano de 2006 foi marcada por "graves erros e fracassos, tanto a nível político como militar, por falta de pensamento e planeamento estratégicos", concluiu a Comissão Winograd, ao fim de quase ano e meio de investigação.» («Público»)
a
«A guerra do Líbano de 2006 foi marcada por "graves erros e fracassos, tanto a nível político como militar, por falta de pensamento e planeamento estratégicos", concluiu a Comissão Winograd, ao fim de quase ano e meio de investigação.» («Público»)
a
30.1.08
"life is a cabaret"
a
Primeiro, faz-se do homem o bombo da festa. Depois cai e, afinal, era um bom ministro, só não tinha dotes de comunicação suficientes para enfrentar tantos interesses...
Mas a razão, no fundo, é sempre a mesma: a de um país que continua a querer a papa feita sem perceber que primeiro é preciso deitar mãos ao trabalho.
a
Primeiro, faz-se do homem o bombo da festa. Depois cai e, afinal, era um bom ministro, só não tinha dotes de comunicação suficientes para enfrentar tantos interesses...
Mas a razão, no fundo, é sempre a mesma: a de um país que continua a querer a papa feita sem perceber que primeiro é preciso deitar mãos ao trabalho.
a
29.1.08
se fosse o euromilhões...
a
Ora, no dia em que eu finalmente consigo gravar as 'moving pictures', cai o ministro!
As ditas 'pictures' são basicamente da sala de colheitas e laboratórios do Centro Regional de Sangue do Porto, em cujo sector de Agentes Transmissíveis cumpri seis anos e meio de sucessivos contratos a prazo de seis meses.
Eu trabalhava com o outro lado, como costumava dizer. Era a partir do momento em que se detectava algum problema analítico e a unidade de sangue era inutilizada que se iniciava a minha acção: cuscar no lixo - era preciso fazer levantamentos, cruzar confirmações de resultados, notificar doentes.
Às vezes, era um verdadeiro trabalho de detective. Um dia um nome soou-me familiar, vai daí fui à cata e detectamos um portador de HIV, conhecedor do facto, que andava a tentar doar sangue em vários sítios (sem sucesso em nenhum deles, refira-se). Acontece...
De resto, ainda não sei se era verdadeiramente hilariante ou se isso foi uma defesa minha para não ceder ao desespero que é trabalhar na Administração Pública. Digamos que, na prática vigente, a principal função de qualquer um é empatar a vida ao vizinho, quanto mais não seja para demonstrar que tem essa capacidade dentro do quintal. Às vezes era melhor do que cinema!
Talvez os senhores que estudam o fenómeno da (im)produtividade nacional devessem deter-se um pouco neste nosso espírito de pequena inveja.
Mas tenho que reconhecer que era um sítio democrático: a 'elasticidade' de horários não era só para os médicos e funcionários superiores, mas um direito de toda a gente!
Nos últimos dois anos, o cenário ganhou contornos de ficção científica: novas instalações, de raiz, laboratórios de alto rendimento. Um dia lembrei-me de fotografar os ambientes dos meus circuitos diários pelo edifício que, além de bonito, foi pensado de forma muito inteligente (a ARX Portugal, que assina o projecto, não pode ser responsabilizada pelas decorrências de, com a obra já avançada, ter sido alterada a encomenda).
Nunca consegui foi o meu grande objectivo: fazer passar «Espécie de Vampiro», de Jorge Palma, em som de fundo na sala de colheitas. Aqui fica, portanto, uma pequena vingança...
Nota: a escolha da música é um pequeno exercício lúdico, uma ironia que se impunha, que em nada se confunde com a minha opinião sobre a acção do CRSP ou do IPS.
Ora, no dia em que eu finalmente consigo gravar as 'moving pictures', cai o ministro!
As ditas 'pictures' são basicamente da sala de colheitas e laboratórios do Centro Regional de Sangue do Porto, em cujo sector de Agentes Transmissíveis cumpri seis anos e meio de sucessivos contratos a prazo de seis meses.
Eu trabalhava com o outro lado, como costumava dizer. Era a partir do momento em que se detectava algum problema analítico e a unidade de sangue era inutilizada que se iniciava a minha acção: cuscar no lixo - era preciso fazer levantamentos, cruzar confirmações de resultados, notificar doentes.
Às vezes, era um verdadeiro trabalho de detective. Um dia um nome soou-me familiar, vai daí fui à cata e detectamos um portador de HIV, conhecedor do facto, que andava a tentar doar sangue em vários sítios (sem sucesso em nenhum deles, refira-se). Acontece...
De resto, ainda não sei se era verdadeiramente hilariante ou se isso foi uma defesa minha para não ceder ao desespero que é trabalhar na Administração Pública. Digamos que, na prática vigente, a principal função de qualquer um é empatar a vida ao vizinho, quanto mais não seja para demonstrar que tem essa capacidade dentro do quintal. Às vezes era melhor do que cinema!
Talvez os senhores que estudam o fenómeno da (im)produtividade nacional devessem deter-se um pouco neste nosso espírito de pequena inveja.
Mas tenho que reconhecer que era um sítio democrático: a 'elasticidade' de horários não era só para os médicos e funcionários superiores, mas um direito de toda a gente!
Nos últimos dois anos, o cenário ganhou contornos de ficção científica: novas instalações, de raiz, laboratórios de alto rendimento. Um dia lembrei-me de fotografar os ambientes dos meus circuitos diários pelo edifício que, além de bonito, foi pensado de forma muito inteligente (a ARX Portugal, que assina o projecto, não pode ser responsabilizada pelas decorrências de, com a obra já avançada, ter sido alterada a encomenda).
Nunca consegui foi o meu grande objectivo: fazer passar «Espécie de Vampiro», de Jorge Palma, em som de fundo na sala de colheitas. Aqui fica, portanto, uma pequena vingança...
Nota: a escolha da música é um pequeno exercício lúdico, uma ironia que se impunha, que em nada se confunde com a minha opinião sobre a acção do CRSP ou do IPS.
PS - Quanto ao ministro, e nesta altura do campeonato, gostava mais que não tivesse sido substituído por um médico. A ver vamos...
a
a
28.1.08
gangs of new york
a
Acabei de ver «Gangs of New York» e não pode deixar de me vir à memória um trabalho que fiz num curso de Língua Inglesa, há alguns anos, em que nos foi proposta a redacção de uma crítica de cinema, por acaso uns dias depois de eu ter visto «Aviador»:
«The weird thing about this film is that it makes us travel along a few years of Howard Hughes' life guided by an absolutely brilliant eye – Scorcese's awkward art for showing genius and insinuating insanity is totally perceived only towards the end – with the constant opposition of the actor in the leading role, as Di Caprio is unable to reveal enough intensity to be convincing playing such a troubled mind.
Aware of what he was dealing with, Scorcese did a very good job trying to hide Di Caprio's lack of hability behind camera movements, lightening, make-up and similar effects. He could have been completely successful. He was close enough, but he was not.
On the other hand, this close distance to perfection might be the detail leading us to admire how perfect Scorcese's work can be. In spite of Di Caprio, a masterpiece.»
Acontece que, desta vez, Scorcese foi eficaz a resolver o problema: disfarçado de protagonista, Di Caprio é, na prática, apenas o pretexto para contar a história, uma personagem básica, com um objectivo mas sem grandes dilemas. E ele safa-se muito bem na coisa.
O protagonismo acaba por ficar nas mãos de Daniel Day-Lewis e Scorcese consegue - com a inclusão do 'artista' e mais uma vez com mão de mestre - resolver aquilo a que podemos chamar um verdadeiro 'cu de boi' na actualidade: o financiamento da produção do grande cinema de autor.
a
Acabei de ver «Gangs of New York» e não pode deixar de me vir à memória um trabalho que fiz num curso de Língua Inglesa, há alguns anos, em que nos foi proposta a redacção de uma crítica de cinema, por acaso uns dias depois de eu ter visto «Aviador»:
«The weird thing about this film is that it makes us travel along a few years of Howard Hughes' life guided by an absolutely brilliant eye – Scorcese's awkward art for showing genius and insinuating insanity is totally perceived only towards the end – with the constant opposition of the actor in the leading role, as Di Caprio is unable to reveal enough intensity to be convincing playing such a troubled mind.
Aware of what he was dealing with, Scorcese did a very good job trying to hide Di Caprio's lack of hability behind camera movements, lightening, make-up and similar effects. He could have been completely successful. He was close enough, but he was not.
On the other hand, this close distance to perfection might be the detail leading us to admire how perfect Scorcese's work can be. In spite of Di Caprio, a masterpiece.»
Acontece que, desta vez, Scorcese foi eficaz a resolver o problema: disfarçado de protagonista, Di Caprio é, na prática, apenas o pretexto para contar a história, uma personagem básica, com um objectivo mas sem grandes dilemas. E ele safa-se muito bem na coisa.
O protagonismo acaba por ficar nas mãos de Daniel Day-Lewis e Scorcese consegue - com a inclusão do 'artista' e mais uma vez com mão de mestre - resolver aquilo a que podemos chamar um verdadeiro 'cu de boi' na actualidade: o financiamento da produção do grande cinema de autor.
a
a revolução 'desumana'
a
«(...) Temos uma dificuldade crescente em distinguir a informação da sua síntese ou, dito de outra forma, do conhecimento. Porquê? Porque a cultura gerada pelas máquinas nos ultrapassa. Usando uma metáfora marítima: a quantidade de informação apresentada na net é um oceano, mas nós desconhecemos a arte de marear. Cada vez mais, parece que permanecer à superfície deste oceano - «navegar» - se tornou uma questão de sobrevivência. Só que os humanos ainda o fazem à moda antiga, ainda vemos o conhecimento aliado ao conceito de profundidade. A superfície e o fundo: vamos ter que aprender a conciliar estas duas noções.»
Interessantíssimas, as linhas de raciocínio do professor Ollivier Dyens. «La révolution 'inhumaine'», a ler na íntegra no Le Monde.
a
Interessantíssimas, as linhas de raciocínio do professor Ollivier Dyens. «La révolution 'inhumaine'», a ler na íntegra no Le Monde.
a
27.1.08
batem corações por trás do nevoeiro e do aço
para que conste
a
Fumo há muitos anos, aí uns 25. E fumo muito (um maço e meio ao dia é para mim razoavelmente pouco).
Os meus pulmões não estão cheios de resíduos, o que se comprovou em vários raios-X aquando de uma pneumonia relativamente recente, e a árvore brônquica aparece perfeitamente desenhada. Não me dá o abafa com esforços mais intensos, tipo corrida para apanhar o autocarro. Os clínicos dizem que não é normal, mas que às vezes acontece.
Sou uma potencial assassina, disseram-me muitas vezes: nem durante a gravidez deixei de fumar. Não, a criança não nasceu prematura, até passou o tempo; não, não nasceu com baixo peso, eram 3,600 kg. Não, não tem problemas respiratórios - é uma criança saudável, já lá vão quase nove anos e nunca fomos a um hospital.
ESTOU FARTA DE ATURAR GEORGES!
a
Fumo há muitos anos, aí uns 25. E fumo muito (um maço e meio ao dia é para mim razoavelmente pouco).
Os meus pulmões não estão cheios de resíduos, o que se comprovou em vários raios-X aquando de uma pneumonia relativamente recente, e a árvore brônquica aparece perfeitamente desenhada. Não me dá o abafa com esforços mais intensos, tipo corrida para apanhar o autocarro. Os clínicos dizem que não é normal, mas que às vezes acontece.
Sou uma potencial assassina, disseram-me muitas vezes: nem durante a gravidez deixei de fumar. Não, a criança não nasceu prematura, até passou o tempo; não, não nasceu com baixo peso, eram 3,600 kg. Não, não tem problemas respiratórios - é uma criança saudável, já lá vão quase nove anos e nunca fomos a um hospital.
ESTOU FARTA DE ATURAR GEORGES!
a
odisseia matosinhense
a
Ora, tinha eu verdadeiramente vontade de jantar fora. Também acontece de vez em quando...
Primeira tentativa:
Portugália, NorteShopping (o mais perto) - a excepção no grupo Portugália. Parece que o tio Belmiro não deixa...
Segunda tentativa:
D. Zeferino, Matosinhos - fuma-se, de facto. Mas tentem lá arranjar mesa...
Terceira tentativa:
Churrascaria Inglesa, Matosinhos - vermelho! Definitivamente, a rede de informações on line não anda lá muito exacta!
Finalmente:
Churrascaria Portugal, Matosinhos - continua a servir magníficos grelhados para trazer para casa!
a
Ora, tinha eu verdadeiramente vontade de jantar fora. Também acontece de vez em quando...
Primeira tentativa:
Portugália, NorteShopping (o mais perto) - a excepção no grupo Portugália. Parece que o tio Belmiro não deixa...
Segunda tentativa:
D. Zeferino, Matosinhos - fuma-se, de facto. Mas tentem lá arranjar mesa...
Terceira tentativa:
Churrascaria Inglesa, Matosinhos - vermelho! Definitivamente, a rede de informações on line não anda lá muito exacta!
Finalmente:
Churrascaria Portugal, Matosinhos - continua a servir magníficos grelhados para trazer para casa!
a
26.1.08
as vantagens de ser letrado
a
Em França com honras de primeira página, na Alemanha mais discretamente, morrem os últimos veteranos da I Grande Guerra.
Vem-me à memória uma história de família, a do meu bisavô José dos Santos Carvalho, figura muito pouco simpática, de resto, marceneiro, engenhocas e usurário lá para as bandas do Paião.
Rezam as crónicas que, por falta de gosto, ignorância ou teimosia, em catraio se recusava a aprender a ler. A sua mãe, no entanto, nunca deixou de insistir, e ao fim de uns anos de canseira lá conseguiu ver o filho dominar os rudimentos da escrita e da leitura, que este continuava a considerar uma coisa fútil.
Até passarem os anos e ser mobilizado para o teatro de guerra, em França: o facto de ser dos poucos soldados portugueses alfabetizados valeu-lhe um posto administrativo, longe das trincheiras, que lhe permitiu escapar às doenças, às bombas, aos gaseamentos (e continuar a atazanar a vida de toda a família até aos anos 80!)
a
Em França com honras de primeira página, na Alemanha mais discretamente, morrem os últimos veteranos da I Grande Guerra.
Vem-me à memória uma história de família, a do meu bisavô José dos Santos Carvalho, figura muito pouco simpática, de resto, marceneiro, engenhocas e usurário lá para as bandas do Paião.
Rezam as crónicas que, por falta de gosto, ignorância ou teimosia, em catraio se recusava a aprender a ler. A sua mãe, no entanto, nunca deixou de insistir, e ao fim de uns anos de canseira lá conseguiu ver o filho dominar os rudimentos da escrita e da leitura, que este continuava a considerar uma coisa fútil.
Até passarem os anos e ser mobilizado para o teatro de guerra, em França: o facto de ser dos poucos soldados portugueses alfabetizados valeu-lhe um posto administrativo, longe das trincheiras, que lhe permitiu escapar às doenças, às bombas, aos gaseamentos (e continuar a atazanar a vida de toda a família até aos anos 80!)
a
Subscrever:
Mensagens (Atom)





