30.4.08

a maldição de thomas paine

a
«Em 1789, Thomas Paine, escritor, filósofo e revolucionário norte-americano, comparava o sol à verdade: 'É esta a irresistível natureza da verdade, tudo o que pede e de que precisa é liberdade para aparecer'.

«Thomas Paine, autor de «Common Sense» e «The Rights of Man», estava errado. Paine cedeu gratuitamente os direitos de autor sobre «Common Sense» - permitiu às gráficas, que na altura integravam as actividades de edição e distribuição, embolsarem a parte que lhe pertencia. Satisfeitas com os termos do negócio, aquelas preferiram «Common Sense» a outras obras que poderiam ter publicado.

«Thomas Paine descobriu a regra essencial da economia do moderno press release: o plágio autorizado. A irresistível verdade de Paine foi publicada não só pela sua coerência, mas porque o próprio Paine subsidiou a produção da obra, usando as finanças pessoais para competir com ideias. Da mesma forma que os editores de «Common Sense» gostaram de não ter de dividir lucros, o press release, quando apareceu, terá sido encarado como uma bênção pelo quarto poder, porque rentabilizava o trabalho necessário à análise dos assuntos sem, no entanto, comprometer outras abordagens. À medida que o corta-e-cola electrónico foi facilitando tarefas, o press release e outros conteúdos similares foram proliferando.

«Quando este sistema de produção de ideias atingiu o equilíbrio económico, o trabalho não subsidiado deixara de ser lucrativo e foi eliminado. A consequência foi uma grande reviravolta: das palavras que saíam do raciocínio dos autores para as que são empurradas pela mão desses mesmos autores vindas dos serviços de algum interesse específico.

«A Imprensa, incluindo na Internet, já não pode ser vista como uma actividade de produção de conteúdos, mas como uma indústria de selecção de lobbies, que faz a ponte entre essas contribuições alheias e o interesse do leitor. À sua maneira, não deixa de ser análoga à economia legislativa que equilibra os interesses dos lobbies políticos e a credulidade do eleitorado.

(...)

«Os jornalistas profissionais não o fazem [analisar directamente as matérias] porque isso não constitui favor que possa mais tarde vir a ser cobrado. (...)
A Imprensa respeitada alimenta o seu próprio poderio mediando a comunicação entre grupos de influência em competição - assegurando que cada ataque a um deles é sustentado por um dos outros.»

Julian Assange
wikileaks


Nem de propósito, dada a questão do post anterior, acaba de chegar esta interessante reflexão. Não diz nada de muito novo, mas não deixa de sistematizar questões de facto pertinentes.
a

a vida num país de tricas

a
«António Cunha Vaz é desde 2003 dono de uma agência de comunicação que, nos primeiros três anos, se tornou na mais importante do país. (...) Os colegas de profissão odeiam-no. Dizem que subiu à custa de amigos poderosos e de métodos pouco ortodoxos. Os jornalistas temem-no, os comentadores falam dele como se se tratasse do demónio em pessoa.» [Público, 28.04.08]

Os jornalistas temem-no?
Vá-se lá imaginar porquê...
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28.4.08

breve revista

a
de uma semana em que não me apeteceu comentar estas coisas...


1.

Os governos ocidentais começam a ficar muito mal vistos se não pressionam:

Um carregamento de armas chinês não chega ao Zimbabwe. Mugabe realiza não ser possível manter o poder no meio de tanto isolamento. A recontagem de votos naquele país confirma a vitória da oposição. Vamos a ver...

A China aceita conversar com o dalai lama. Pode ser um princípio. É pelo menos um sinal.


2.

Volta o espectro das grandes fomes no mundo. Os especuladores financeiros enchem os bolsos de dinheiro. Há que recuperar da crise, convenhamos.


3.

A wikileaks ganhou o prémio.
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do the strand

a
Há lugares onde sabe bem regressar, de vez em quando. A gente sente-se em casa.



a

26.4.08

goodfellas

a
«É, meu irmão, eu juro, eram nove e meia e estava inocente para a vida, foi a chavala, tás a ver, a catraia acordou-me «Pai, quero ir ao parque», tás a ver, juro que estava inocente para a vida, e não é que estamos no parque e encontro um gajo, vem o man, meu, e diz «vai ao quarto-de-banho que estão lá uns comunicados*» e tal, tás a ver, foda-se, às onze já estava cego, tou-te a dizer, meu irmão, não via nada, tive que apanhar uma tarifa** do parque ao Bairro dos Pescadores***».

*comunicados (panfletos, pacotes): embalagens de cocaína, neste caso
** tarifa: táxi
***distância: cerca de 500 metros

Estávamos três à mesa em amena cavaqueira. Chega um catraio, senta-se, manda servir uma rodada. Repete a história três ou quatro vezes, sem pausas, a cem à hora. Acaba a cerveja e vai embora. Atrás de negócios e de mais comunicados, possivelmente. Uma vez perdida a inocência...

Há muitos anos que não embalava numa noite de copos pelo underground matosinhense, mas às vezes calha. Lamento não ser possível sacar de bloco de apontamentos, de máquina de filmar, de qualquer coisa... digamos que esta foi só uma das inúmeras cenas de filme a que assisti em algumas horas.
a

25.4.08

no dia da liberdade

a
Um dia experimento um filme propriamente dito: a montagem de imagens é uma coisa que me fascina. Vou-me entretendo com uns ensaios exploratórios, no entretanto.

Este calhou de ficar pronto agora. E calhou bem. Afinal, tem tudo a ver com liberdades. E culturas.

O fundo sonoro tem uma história: retrata uma conversa entre o jovem Gil, com a cabeça cheia de maconha, e o respectivo pai. Em tempo de ditadura. Chegada a democracia, acabou em ministro...




a

24.4.08

um pequeno prec introdutório

a
Ainda não era a revolução, mas lá por casa vivia-se uma espécie de PREC. Começara uma semana antes: um grande reboliço, muitas conversas só de adultos, os primos de Lisboa que de repente vieram para o Porto, o resto da família em constantes visitas à capital.

Versão oficial: o tio, irmão do meu pai, adoecera de repente e estava hospitalizado.
Ainda me lembro bem das laboriosas cartas a desejar as melhoras que lhe escrevi nessa altura.

A minha mãe, uma noite, decidiu contar-me a verdade. Estava eu demasiado preocupada com a 'doença', imagino.
Ainda hoje revejo a cena: nós as duas dentro do Mini branco estacionado à porta do Macedo Varela, a casa de quem o meu pai fora em diligência rápida que se estava a prolongar. «Sabes, o teu tio não está doente. Está preso pela PIDE». Lembro-me que desatei num pranto. Que a dada altura veio o meu pai, chamar-nos para entrar. E que pedi para contarem que tinha acabado de me magoar quando perguntassem do meu ar de choro, o «não foi nada» do costume.


Quanto ao ambiente PREC, eis o quadro: o meu avô era um homem do regime, fora mesmo deputado à Assembleia Nacional uns anos antes. Às primeiras notícias, pegou no telefone e ligou directamente a um qualquer membro do Governo. E ficou a saber que não era engano, o filho era mesmo militante do PC...

PS - As ditas laboriosas cartas, contaram-me depois que seguiram todas. Questão de encher de palha quem tivesse a função de ler previamente a correspondência. E de distrair o preso, obviamente.
a

23.4.08

despertar

a
Que se passa durante a noite bem lá dentro da cabeça das criancinhas é coisa que ignoro, mas é sempre entre as 7h30 e as 8h que ela se lembra das grandes perguntas. E eu lá tenho que acordar para as respostas...

- Ó mãe, o que é um senhor feudal?

- Era um nobre da Idade Média.

Segue-se uma explicação muito sucinta da estrutura social medieval, mais meia-dúzia de perguntas.

- Ah, já percebi. É assim como a cadeia alimentar.

Pelo menos desperto à gargalhada!
a

21.4.08

a
Chega o dia em que quem nos viu nascer já não nos conhece.

Mas também nós não conseguimos ver por trás daquele olhar inexpressivo a mesma pessoa de sempre. Já lá não está.
a

20.4.08

19.4.08

o envenenamento

a
Não é grande novidade, as manchas de fumo que avisto da janela coincidem com as vias rápidas na área envolvente: Boavista é a zona que mais sofre com a poluição da VCI, diz o JN.




Mais curioso será este apontamento:

«A investigação conclui, contudo, que as concentrações de dióxido de azoto na VCI não têm uma influência determinante na qualidade do ar no interior das habitações, onde a poluição é duas vezes superior à do exterior. Segundo Olga Mayan, investigadora do Instituto Ricardo Jorge, os materiais de construção dos edifícios, os acabamentos e isolamentos à base de químicos, os ambientadores e as velas, bem como os produtos de limpeza são alguns dos elementos responsáveis pela degradação do ar no interior das habitações.»

Em suma: estamos perfeitamente à vontade para viver entre os agentes nocivos que quisermos. Desde que não venham do tabaco.
a

o polvo

a
Por trás de Sérgio Silva, ainda acaba por se descobrir a mão da família Loureiro. Faz o género, como se costuma dizer.
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18.4.08

o bosque educa as suas árvores

a
O bosque educa as suas árvores

Desabituando-as da luz, obriga-as
a remeter todo o verdor para as copas
A capacidade
de respirar por todos os ramos,
o talento
de deitar galhos assim só por prazer
vão estiolando

Coa a chuva, prevenindo
a paixão da sede

Deixa crescer as árvores
coruto a coruto:
nenhuma vê mais que as outras
ao vento todas dizem o mesmo

Reiner Kunze*


*Os escritos de Reiner Kunze eram classificados como «imbecis» e «desfasados» da realidade pelas autoridades da RDA, que, não obstante, o perseguiram afincadamente.

a grande questão

a
Que inesperado laivo de bom senso teria levado Menezes à demissão?
a

17.4.08

a vez da índia

a
Em vez de sair rumo a norte, a tocha afinal seguiu para oeste; em vez de um percurso de 9 km, fizeram-se pouco mais de dois, em estafetas de cerca de 300 metros para cada um dos 70 portadores.

A passagem da tocha por Nova Deli decorreu sem incidentes. Às escondidas, meio a medo. Assim corre o ideal olímpico nos nossos dias.
a

15.4.08

a forma e a substância

a
O Tribunal Central Administrativo do Norte considerou que um vereador não pode usar «do direito de acção popular correctiva para impugnar uma acção» da autarquia, contra a qual até já tinha votado. É uma questão de forma.

O JN conclui que a Câmara do Porto pode entregar a concessão do Rivoli a La Féria.

Não obstante, a própria notícia menciona a acção interposta pela Plateia, que continua a correr. E ainda diz que o argumento da autarquia contra uma providência cautelar foi o de o encenador ter o estatuto de mero «convidado».

Em que ficamos? E onde se vislumbra a notícia de já ter sido apreciada a substância da matéria em análise?


PS - Judicializar a política é uma subversão do sistema, obviamente. E salta aos olhos que o 'bom pobo' do Porto prefere esta versão do Rivoli. Por muito que custe. Tem destas coisas, a democracia: não há uns votos melhores do que outros.

Mas se o que é público é de todos, pelo menos deve haver concurso.
a

há 3/4 de século

aFamília Costa, Paião, anos 30.

Uns anos depois deste 'cliché', a mesma senhora foi à loja do fotógrafo comprar um outro, da menina já adolescente, que o homem tivera a ousadia de pintar a aguarela (o Photoshop daquele tempo) e pôr na montra. Ter o retrato afixado não condizia com o recato conveniente a uma donzela em lado nenhum, muito menos no Portugal salazarista.

O senhor negociava fazendas e artigos funerários em terra de alfaiates. Republicano convicto e ateu, não deixava de cultivar profunda amizade com o pároco da vila. Rezam as crónicas que era também um grande democrata e defensor do pluralismo de ideias. Em sua casa reuniu, durante muitos anos, uma pequena tertúlia de oposicionistas locais no seio da qual circulavam, entre outras coisas, as edições clandestinas do «Avante!».

A menina é minha avó. Ainda hoje mantém o mesmo gosto pelo aprumadinho.
a

14.4.08

urbanidades

a
Mais um apontamento do percurso a céu aberto do ribeiro da Riguinha. Foi anunciado há tempos um plano para a criação de uma continuidade de espaço verde entre o Parque da Cidade e as imediações do Norteshopping.



Parque de Real, entre a Cruz de Pau e a Biquinha - Set.2007


O agradável, nesta concepção, é ver que o verde não se organiza em ilhas, mas integra os viveres quotidianos da cidade. A contrapartida serão os alucinantes aumentos do IMI, mas acho que todos temos que reconhecer que a qualidade do espaço urbano tem um preço.
a

o crime desorganizado

a
Luís Fernandes em entrevista ao «Público»/Rádio Nova, ou mais um retrato da vida de certos bairros portuenses:

«O mercado das drogas não se fixa de modo aleatório, fixa-se por razões estruturais que se prendem com a tal crise da sociedade pós-industrial. Recruta mão-de-obra nos sítios onde a empregabilidade está em crise profunda, onde se esbateu o vínculo entre a escola e o trabalho. Para muitos dos nossos jovens, sobretudo os das camadas mais desfavorecidas, a escola é um destino que abre para parte nenhuma. Os bairros sociais tinham, já nessa época, uma certa fractura em relação à cidade, que nunca foi resolvida: continuam a ser sítios de margem, a manter um certo aspecto de fortificações onde é mais fácil desenvolver actividades perseguidas criminalmente. Nada de especial: as pessoas lançam mão das economias de interstício [como o tráfico de droga ou a venda de contrafacção] de que precisam para sobreviver.

(...)

«As drogas são um mercado com diferentes patamares, diferentes interesses e múltiplos agentes. Diria até que são o contrário do crime organizado, são o crime desorganizado. Ele vai para tantos lados, tem tantos agentes que não se conhecem uns aos outros que não podemos ter um modelo de pirâmide. Funciona muito mais em raiz, horizontalmente.

(...)

«Os bairros sociais não são independentes entre si. Fruto até de políticas sociais. Um indivíduo pode viver no bairro A, a família cresce, o filho casa-se e tem direito a habitação social no bairro B. Há relações de família, de vizinhança. Isto também funciona para os mercados, sejam de T-shirts na feira de Espinho, sejam de venda de produtos ilícitos. E felizmente que é assim. Quando o Estado-providência não funciona, há uma sociedade-providência. Vejamos a situação seguinte: pai e mãe a trabalhar na mesma fábrica, a fábrica é deslocalizada; de repente, ficam os dois desempregados, há cinco filhos menores. Se calhar, há um vizinho que os conhece há muitos anos e que até obtém os seus proventos da venda de drogas e que consegue suportá-los economicamente durante um tempo. Aqui o dinheiro da droga está a cumprir um papel que o Estado-providência devia cumprir e não cumpre.»
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listening wind

a

Não é bem um filme... mas só aqui está pelo som:




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13.4.08

colapso informático

a
A confusão foi tanta que só dava para rir, mas há alturas em que um PC só tem um remédio: a aposentação.

Por muito que cu$te... o certo é que o desastre se anunciava há algum tempo: o sistema empancava tantas vezes que chegava a ter a impressão de estar de volta ao antigo emprego na Administração Pública (e isto não é boca - grande parte do equipamento informático era reconstruído a partir de material obsoleto).

Agora estou na parte chata: instalar tudo outra vez... Pelo menos funciona, e tão silenciosamente que até estranho!
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12.4.08

a

FREEDOM OF EXPRESSION AWARDS 2008


The Economist New Media Award

«This new award seeks to recognise the use of computer or internet technology to foster debate, argument or dissent. Nominations can also cover those who enhance online freedom, through the use of new technologies.»

The nominees:

AJ Naklasila/Channel 4 New Media / Truevision (UK)
Ethio Zagol (Ethiopia)
Wikileaks (International / US)
Iran Proxy (Iran)
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11.4.08

em desespero de causa

a
Entre as coisas que sinceramente dispensava estão as festas de casamento, sobretudo quando metem missa e exigem farpela de cerimónia.

O raio da farpela é um verdadeiro trinta-e-um: já vão duas tardes inteirinhas a calcorrear lojas umas atrás das outras sem vislumbre de trapo vagamente adequado. A razão? Só se encontra o que é mau e o que é muito bom, o razoável é um nicho de mercado em vias de extinção há muito tempo.

(Não imaginam as saudades do tempo das antigas costureiras em cujas mãos se podia pôr um bom corte de seda com toda a confiança!)
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10.4.08

o dia dos ilusionistas

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Aparecia e desaparecia de surpresa: à passagem por S. Francisco, a chama olímpica ficou conhecida como 'a tocha Houdini'.

Mas o passe mágico do dia teve outro palco. Em visita oficial à China, o primeiro-ministro australiano dirigiu-se a uma plateia de estudantes em plena Universidade de Pequim. Falando em mandarim, língua em que é fluente, Kevin Rudd afirmou ser «necessário reconhecer que existem problemas significativos de direitos humanos no Tibete» e deixou um apelo: «A comunidade internacional anseia pela plena integração da China no ordenamento jurídico global, incluindo os aspectos da segurança, economia, direitos humanos e ambiente».


Claro que funcionaram os velhos truques da censura e a Imprensa local não deu notícia da visão crítica do chefe do Governo australiano.

Ainda assim, há-de ter sido coisa digna de ser vista.
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