3.9.09

romper o cerco

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«(...) O fascismo trouxe uma outra consequência: a que atesta uma impossibilidade de pertencer a uma geração homogénea. Antes do 25 de Abril as crianças não brincavam umas com as outras: brincavam com aqueles que pertenciam ao seu universo estanque.»
«As possibilidades de ser criança entre 68 e 74», Cecília Cunha, Caminhos da Memória

No Outono de 1974, andavam os meus pais imbuídos do mais puro espírito revolucionário, troquei a escola privada pela pública. Uns meses antes, tínhamos mudado para uma urbanização de luxo que começava então a erguer-se junto a uma das zonas mais pobres de Matosinhos, a Cruz de Pau, pelo que foi aí que me calhou iniciar a 2ª classe.

O primeiro choque? A professora. Uma velha ríspida sempre vestida de negro que distribuía reguadas e bofetões a torto e a direito e que nos deixava tolhidos de medo. O segundo? Os outros meninos. Não havia uma alma que brincasse comigo no recreio.

Íamos quase nas férias do Natal, era dia de prova. Eu já tinha acabado e olhava para a cópia da colega de carteira, fascinada com a perfeição da caligrafia. Dei com um erro, indiquei-lho. Agradeceu e... ficou minha amiga! Pela sua mão comecei a jogar à macaca e ao elástico, embora as outras não gostassem muito...

Às vezes vinha brincar cá para casa. Na dela, não havia espaço: duas divisões exíguas - mesmo à escala dos meus sete anos - onde cozinhavam, comiam e dormiam sete pessoas. Sem quarto de banho, só uma retrete no exterior. Ainda assim, era uma casa de pedra e lá dentro, visivelmente, não se passava fome - eram todos robustos.

A experiência escolar durou até meio do 2º período. Rezam as crónicas que comecei a inventar histórias para poder faltar às aulas, com medo da velha. E que, quando abordou o assunto com ela, a minha mãe foi aconselhada a não se preocupar: «a sua filha eu não trato assim, ela não é igual aos filhos de pescadores que aqui andam».

Foi a gota de água - lá regressei à antiga escola, a métodos de ensino adequados, a um sítio onde toda a gente me dirigia a palavra. (E onde não me obrigavam a vestir bata, coisa que sempre detestei.)

Guardei a amiga.
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