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24.4.08

um pequeno prec introdutório

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Ainda não era a revolução, mas lá por casa vivia-se uma espécie de PREC. Começara uma semana antes: um grande reboliço, muitas conversas só de adultos, os primos de Lisboa que de repente vieram para o Porto, o resto da família em constantes visitas à capital.

Versão oficial: o tio, irmão do meu pai, adoecera de repente e estava hospitalizado.
Ainda me lembro bem das laboriosas cartas a desejar as melhoras que lhe escrevi nessa altura.

A minha mãe, uma noite, decidiu contar-me a verdade. Estava eu demasiado preocupada com a 'doença', imagino.
Ainda hoje revejo a cena: nós as duas dentro do Mini branco estacionado à porta do Macedo Varela, a casa de quem o meu pai fora em diligência rápida que se estava a prolongar. «Sabes, o teu tio não está doente. Está preso pela PIDE». Lembro-me que desatei num pranto. Que a dada altura veio o meu pai, chamar-nos para entrar. E que pedi para contarem que tinha acabado de me magoar quando perguntassem do meu ar de choro, o «não foi nada» do costume.


Quanto ao ambiente PREC, eis o quadro: o meu avô era um homem do regime, fora mesmo deputado à Assembleia Nacional uns anos antes. Às primeiras notícias, pegou no telefone e ligou directamente a um qualquer membro do Governo. E ficou a saber que não era engano, o filho era mesmo militante do PC...

PS - As ditas laboriosas cartas, contaram-me depois que seguiram todas. Questão de encher de palha quem tivesse a função de ler previamente a correspondência. E de distrair o preso, obviamente.
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29.4.07

em cada esquina um cartaz

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A iniciativa foi da Junta de Freguesia: um cartaz para cada instituição de Matosinhos. Estão espalhados pela cidade, numa acção que, de certa forma, traz de volta para as ruas uma amostra do espírito que se viveu durante a primeira fase do período revolucionário.















À volta deste que as imagens documentam, da EB1/JI Florbela Espanca, cada aluno tinha espetado um cravo de papel feito por si: eram 400... e demoraram dois dias a desaparecer.


Junto à Câmara Municipal foi mais desagradável - um qualquer indivíduo entreteve-se a vandalizar vários placards, escrevendo por cima 'Salazar 41%'. Não figura aqui a imagem porque me recuso a publicar um documento utilizável por qualquer um, nomeadamente os próprios simpatizantes dessas causas neo-nazis, que me são deveras repugnantes.




PS - A presente inconstância deste blog deve-se à circunstância de o meu PC estar necessitado de reparação que não é oportuno realizar de imediato. Em breve tudo estará de regresso ao normal.
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15.5.06

25 abril 2005

À primeira, estranhei a ausência de representantes oficiais. Depois realizei, lembrei: é verdade, é a noite do povo, daquele que saiu à rua primeiro, a dar de beber aos soldados, a pintalgar de flores as ruas das cidades (como se uma revolução à séria só o fosse com vermelho: à falta de sangue, que sejam cravos!), a fazer a festa.

Pois, o povo. Aquele com quem desde há vinte anos eu não saudava esta madrugada a cantar.

Desta vez, confesso, era diferente. Queríamos mostrar às filhas pequenas um pouco do que vivemos assim pequenos como elas. Acho que, porque éramos então os mais novos, nos sentimos agora como se fôssemos os últimos a poder passar testemunho daqueles dias em que se saía de casa e andava toda a gente na rua, um povo inteiro a sorrir.
Então, lá fomos, de cravo em riste, à festa do povo.

Ai, o povo!
O povo!

O povo está velho, esclerosado, inválido, amorfo!

Ele era uma massa homogénea grisalha em casual wear envelhecida, bolsa-a-tira-colo-ou-jornal-debaixo-do-braço, mais uma pequena mole de teenagers, mais ou menos bêbados, mais ou menos rastas, mais ou menos freaks, homogéneos entre si, está claro.
E ele era pouco. Bastante pouco.

Pronto. Então chegamos lá mesmo à hora, estava a actuar o eterno coro de Letras. Mas não se ouvia. Soou a meia-noite, eles interromperam-se a meio da canção, o maestro deu meia volta para reger a assistência e até cantamos a «Grândola» afinadinhos (um tanto em surdina, enfim, não vá o diabo tecê-las)
.
Depois bateram-se palmas e começou o fogo-de-artifício, mas em surdina (não vá o diabo tecê-las, e mesmo porque esta meia dúzia de gatos pingados não vale grande investimento em foguetes).

Então acabou, batemos outra vez as palmas, as pessoas começaram a dispersar entre comentários: que éramos poucos, muito poucos, a coisa do costume, uma vergonha... mas que, vendo bem, tudo passava pela (des)organização do evento, porque actualmente não há quem tenha uma «razão racional» que o chame ali.

Bem, depois acabou.
Aninhada no meu colo, a filha disse:
- Ó mãe, gostei mesmo muito! Vou contar aos meninos. Foi muito bonito! Já podemos ir para casa?

(Pensando bem, se calhar até gostou. Deve ter-se sentido numa ocasião muito importante: do nosso lado da praça, ela e a amiguinha deviam ser as únicas crianças presentes. )






P.S. Não acho que a Revolução tenha que ser venerada. Nem me incomoda ver as gerações novas encarar a liberdade e a democracia como realidade intrínseca feito o ar que se respira - não tarda muito será mais um feriado com cerimónias oficiais, como a Implantação da República, é a ordem natural das coisas.
Intriga-me, isso sim, que se não aproveitem estas e outras ocasiões para mostrar aos nossos filhos que trazem em si a capacidade de acreditar, de lutar, de resistir, de dizer NÃO. Em potência.
imagens do Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra [link]