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6.7.08

é uma alegria!

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A Queima é pior, dura uma semana inteira. Mas o festival da Super Bock não é menos barulhento.

A poluição sonora que na gestão de Rui Rio se instalou nesta zona é um absurdo. Já levávamos com os pinguins, depois vieram as corridas, agora os festivais...

[Valeram os ZZ Top. Pelo menos pela janela, um concerto excelente.]
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23.5.08

bairro negro

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Nas proximidades, resta um bairro de lata - já foram quase uma dezena. O que vou dizer não é simpático, mas é verdade: a maioria dos habitantes distingue-se pelo cheiro. Não há nem condições mínimas de salubridade, nem noções básicas de higiene. As crianças são enfezadas e têm os dentes podres. Os adultos não têm dentes.

A última tendência? Pintar madeixas loiras nos cabelos... das crianças. Meninas pequenas precocemente travestidas, quase sempre com futuro incerto pelo longo passeio da avenida. Morrem cedo, todas elas.

Imagine-se uma realidade em que cerca de 80% dos pais e mães das crianças do 1º ciclo são alcoólicos. É mais ou menos o que se passa aqui. E já foi pior: há uns anos alargava-se a muito mais gente.
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5.5.08

ainda os pinguins

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Umas pistolas de paint-ball do cimo dos prédios fronteiros...

Aceitam-se voluntários para formar brigadas.
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4.5.08

a inenarrável migração anual dos pinguins

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É a semana da migração anual dos pinguins. Vêm em bandos. Invadem tudo. Tecnicamente, a festa académica do Porto. Factualmente, uma semana de horror para os habitantes da parte sul de Matosinhos.

A um quilómetro de distância não se consegue dormir. Se não levantar vento leste, a próxima semana vai ser toda assim: vou ouvir os concertos, os aplausos, os agradecimentos como se tivesse um carro com o rádio no máximo estacionado debaixo da janela. Até às tantas da madrugada. Todos os dias.

Mais junto ao recinto, é um inferno. Quem pode tira férias, sai de casa por uns dias. Quem não pode tenta de tudo para não dar em tolo, mas dizem que nem tapar as janelas com colchões faz grande efeito. Um desespero.

Quando é que se lembram de os tirar daqui?
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a praga

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O mobiliário urbano no Porto tornou-se uma praga. Não há paisagem, há ruído. Não há lugares, há pontos de passagem.

(De quando em quando passam velhos eléctricos ou turistas nos sight seeing.)
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19.4.08

o envenenamento

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Não é grande novidade, as manchas de fumo que avisto da janela coincidem com as vias rápidas na área envolvente: Boavista é a zona que mais sofre com a poluição da VCI, diz o JN.




Mais curioso será este apontamento:

«A investigação conclui, contudo, que as concentrações de dióxido de azoto na VCI não têm uma influência determinante na qualidade do ar no interior das habitações, onde a poluição é duas vezes superior à do exterior. Segundo Olga Mayan, investigadora do Instituto Ricardo Jorge, os materiais de construção dos edifícios, os acabamentos e isolamentos à base de químicos, os ambientadores e as velas, bem como os produtos de limpeza são alguns dos elementos responsáveis pela degradação do ar no interior das habitações.»

Em suma: estamos perfeitamente à vontade para viver entre os agentes nocivos que quisermos. Desde que não venham do tabaco.
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15.4.08

a forma e a substância

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O Tribunal Central Administrativo do Norte considerou que um vereador não pode usar «do direito de acção popular correctiva para impugnar uma acção» da autarquia, contra a qual até já tinha votado. É uma questão de forma.

O JN conclui que a Câmara do Porto pode entregar a concessão do Rivoli a La Féria.

Não obstante, a própria notícia menciona a acção interposta pela Plateia, que continua a correr. E ainda diz que o argumento da autarquia contra uma providência cautelar foi o de o encenador ter o estatuto de mero «convidado».

Em que ficamos? E onde se vislumbra a notícia de já ter sido apreciada a substância da matéria em análise?


PS - Judicializar a política é uma subversão do sistema, obviamente. E salta aos olhos que o 'bom pobo' do Porto prefere esta versão do Rivoli. Por muito que custe. Tem destas coisas, a democracia: não há uns votos melhores do que outros.

Mas se o que é público é de todos, pelo menos deve haver concurso.
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14.4.08

o crime desorganizado

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Luís Fernandes em entrevista ao «Público»/Rádio Nova, ou mais um retrato da vida de certos bairros portuenses:

«O mercado das drogas não se fixa de modo aleatório, fixa-se por razões estruturais que se prendem com a tal crise da sociedade pós-industrial. Recruta mão-de-obra nos sítios onde a empregabilidade está em crise profunda, onde se esbateu o vínculo entre a escola e o trabalho. Para muitos dos nossos jovens, sobretudo os das camadas mais desfavorecidas, a escola é um destino que abre para parte nenhuma. Os bairros sociais tinham, já nessa época, uma certa fractura em relação à cidade, que nunca foi resolvida: continuam a ser sítios de margem, a manter um certo aspecto de fortificações onde é mais fácil desenvolver actividades perseguidas criminalmente. Nada de especial: as pessoas lançam mão das economias de interstício [como o tráfico de droga ou a venda de contrafacção] de que precisam para sobreviver.

(...)

«As drogas são um mercado com diferentes patamares, diferentes interesses e múltiplos agentes. Diria até que são o contrário do crime organizado, são o crime desorganizado. Ele vai para tantos lados, tem tantos agentes que não se conhecem uns aos outros que não podemos ter um modelo de pirâmide. Funciona muito mais em raiz, horizontalmente.

(...)

«Os bairros sociais não são independentes entre si. Fruto até de políticas sociais. Um indivíduo pode viver no bairro A, a família cresce, o filho casa-se e tem direito a habitação social no bairro B. Há relações de família, de vizinhança. Isto também funciona para os mercados, sejam de T-shirts na feira de Espinho, sejam de venda de produtos ilícitos. E felizmente que é assim. Quando o Estado-providência não funciona, há uma sociedade-providência. Vejamos a situação seguinte: pai e mãe a trabalhar na mesma fábrica, a fábrica é deslocalizada; de repente, ficam os dois desempregados, há cinco filhos menores. Se calhar, há um vizinho que os conhece há muitos anos e que até obtém os seus proventos da venda de drogas e que consegue suportá-los economicamente durante um tempo. Aqui o dinheiro da droga está a cumprir um papel que o Estado-providência devia cumprir e não cumpre.»
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31.3.08

a rimar com TCN

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De momento, ainda é assim:


mas em breve tomará a seguinte forma:

















Os preços já ultrapassaram os 1400€ por metro quadrado, diz o Jornal de Notícias. O empreendimento, na Rua de Trás, é da Sache - Solidariedade e Amizade Cooperativa de Habitação Económica (!!!) e chamam-lhe reabilitação urbana de qualidade.
Quanto a mim, é um belo exemplo de como a uniformidade de volumes destrói a paisagem, de como nos roubam uma rua para fazer um corredor.
O alarmante é a notícia de que a Sache vai recuperar pelo menos 18 edifícios no centro histórico do Porto.
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9.2.08

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Esta tarde, à hora do sol se pôr, pintou-se de avermelhado a mancha de poluição que cobre o Porto.
Está sempre lá. Em dias de nevoeiro, distingue-se pelo tom ligeiramente acastanhado. Em dias de chuva não se vê.
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11.11.07

porto, porto

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Há um Porto de que poucas notícias nos chegam, quem é de fora não entra, quem é de dentro não gosta de falar.

No Aleixo, foi recentemente detida uma traficante de relevo, que trabalhava há mais de 15 anos sem que ninguém lhe conseguisse deitar a mão. Ressalve-se que grande parte disto decorre das características arquitectónicas dos blocos que constituem o bairro - seria absurdo imaginar uma rusga policial capaz de encontrar flagrantes quando para entrar nos domicílios é preciso subir muitos andares pelas escadas e passar despercebido em cada patamar.

Nas torres do Aleixo, em cada piso, os patamares são como os pátios comuns de antigamente: servem para secar a roupa, às vezes para instalar o tanque, para os velhos conversarem à soleira, para as crianças pequenas ensaiarem as primeiras correrias. Há mesmo quem delimite o espaço que rodeia a porta de entrada com redes e cancelas.

Nas torres do Aleixo, apesar da altura, há muitos anos que não há elevadores. Quando havia, eram usados como urinóis públicos por dezenas de pessoas, cabines e portas acabavam por não resistir.

O Aleixo visto de Gaia, imagem de A Baixa do Porto

As torres do Aleixo foram previstas para a construção de habitação de luxo em local privilegiado, junto ao rio. Deu-se entretanto a revolução, e a volumetria inicialmente aprovada acabou por ser adaptada a um projecto de habitação social destinada a abrigar a população da zona da Ribeira/Barredo, malha urbana com características de elevadíssima depressão económica e social. Vai daí, em cada piso construíram-se múltiplas habitações unifamiliares pequenas, o que faz com que um só andar abrigue tanta gente como um prédio de habitação social habitual.

As gentes carenciadas da Ribeira tiveram nova casa, sim senhor, mas nem por isso tiveram nova vida: é sabido que atrás da miséria vem a vida de expediente, do contrabando, do roubo, da prostituição, e os cursos de alfabetização não chegaram para abrir grandes caminhos.
Depois veio o boom das drogas por toda a cidade e a respectiva reacção policial. Foi uma questão de tempo: à medida que outros sítios foram sendo mais ou menos controlados e os bairros de lata demolidos, a quase inexpugnabilidade das torres do Aleixo fez delas o local onde a droga nunca faltava e onde toda a gente do meio acabava, mais cedo ou mais tarde, por se ir abastecer. Hoje, é o que (não) se vê.

O Aleixo faz do Porto um absurdo - ilha de miséria humana rodeada por condomínios de luxo protegidos por dezenas de seguranças 24 horas ao dia. A 100 ou 200 metros, até se consegue fazer de conta que não existe ali.

O Aleixo é um belíssimo exemplo de uma organização social espontânea de sucesso, comunidade em autogestão que a cada passo encontra as respostas adequadas à sua sobrevivência. Abandono escolar? E isso é problema? Isso é prestígio, isso é lucro - aos adolescentes entregam agora os traficantes a segurança do local. É eficaz: são doidos, por vezes inimputáveis, não têm medida de consequências. «É pior que favela carioca», diz quem cresceu numa delas.

Vem tudo isto a propósito do que me contaram um destes dias. Será o segundo caso, este ano, de toxicodependentes alvejados a tiro quando estão nas filas de espera (sim, às vezes as filas de 'agarrados' estendem-se pela rua, pior que as dos embrulhos de Natal no Continente, normalmente constituídas por indivíduos semidesfeitos em pleno síndrome de abstinência). Motivo para as duas mortes? Algum desses adolescentes armados um pouco mais doido resolveu praticar tiro ao alvo lá do alto...
[Há uns 15 anos, um antigo colega de liceu morreu lá esfaqueado por causa de... 2$50. Foi notícia no jornal.]

O Aleixo começará a resolver-se no dia em decidirem deitá-lo abaixo e iniciar tudo de novo, inserindo os seus habitantes em estruturas urbanas mais pequenas e permeáveis ao que as rodeia.

O Aleixo começará a resolver-se no dia em que completar o Ensino Secundário não seja o feito de uma vida para os seus adolescentes.

O Aleixo não terá solução possível enquanto o Porto não perceber que lhe pertence, tanto quanto a Torre dos Clérigos, a Casa da Música ou a Câmara Municipal.
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4.5.07

pela foz

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Houve tempos em que eu por aqui passava todos os dias do ano, rumo ao Ferreira, o velho bar com cadeiras ferrugentas fronteiro à praia do Molhe - uma das mais bonitas do planeta, com toda a certeza - onde reuniam tribos várias oriundas de diferentes culturas mais ou menos marginais.

Depois vieram os primeiros bares modernos: os primeiros estrados, os pára-ventos, as pequenas multidões, vozes e música a abafar o murmúrio das ondas do mar. Cresceram feito cogumelos. Em 10 anos ocuparam, na Avenida Brasil, uma boa metade dos areais. E as praias, até então espaços de uso comum frequentados por milhares de banhistas, acabaram por se transformar em paisagens de esplanadas de bar, sem espaço para se estender um lenço.



Do outro lado da rua, já quase todas as antigas moradias deram lugar a modernos e luxuosos edifícios de andares, há lojas e automóveis por todo o lado.
Quanto ao passeio da marginal, encontra-se no estado que estas imagens do António Vasconcelos documentam.
A magnífica pérgola está de pé, mas os sinais de erosão são evidentes e parece que só resistem os vasos mais ao abrigo do vento norte.


Claro que alguns danos serão provocados por actos de vandalismo ou acidentes. Mas parece que ninguém - Câmara, APDL, seja lá quem for! - tem interesse em reparar nem estes estragos nem os buracos no pavimento, certamente responsáveis por muitas lesões nos que ali se dedicam à prática de diferentes desportos.
Como parece não haver um mínimo de elementar respeito por uma das mais marcantes intervenções arquitectónicas da cidade do Porto.

(Pequeno palpite:
Não tarda muito, vem tudo abaixo. E vamos ver quem de direito a decidir gastar milhões num novo e brilhante projecto, na senda do inútil e famoso 'edifício transparente').
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28.12.06

e o Porto aqui tão perto...

Todos os dias, ou quase, faço o mesmo trajecto para o trabalho: de Matosinhos ao Marquês pelo miolo da cidade. Atravesso um bairro social já antigo, em tempos idos afastado do centro, depois sucessivas zonas residenciais de luxo à altura em que são construídas - Andresas, Tenente Valadim, Damião de Góis... Onde ainda há algum espaço, o cenário é sempre assim:


Volta e meia, vou até à Baixa, qual viagem à terra de ninguém.

Caminha-se para o que é mais antigo e não há rua onde se não apresente meia dúzia de casas devolutas, entaipadas, em ruína. Aqueles mesmos edifícios que por um pormenor nos azulejos, um batente, uma sacada, faziam as delícias das nossas memórias da cidade - e as verdadeiras delícias das cidades estão nos sinais deixados pelas muitas pessoas que ao longo dos séculos lhes deram realidade e corpo.



Os amigos 'estrangeiros' estranham que eu não goste de lhes mostrar o velho burgo, mas de cada vez que a isso me aventuro acabo com a sensação de que mais alguma coisa nos está a ser roubada: o espírito de uma cidade ocupada maioritariamente pelos que lá vivem, não pelos que por lá passam apressados entre as 9 e as 7.
O Porto verdadeiramente transformado em cidade de cartão-postal às horas de tirar fotografias; pela noite, e a não ser que haja algum espectáculo, todo o centro é um deserto.



Depois, de vez em quando, saltam números. Acresce que os cerca de cem mil habitantes que abandonaram o Porto são, muito provavelmente, outros tantos cem mil a entrar e a sair da cidade diariamente.
Acresce que quem se aventura a habitar o centro as mais das vezes se arrepende, ele é o trânsito a entrar pela janela o dia todo, as crianças sem espaço onde brincar...
Acresce que a maioria das pessoas com quem eu trabalho acha um absurdo haver quem conteste que o La Féria tenha nas mãos o Rivoli, quase tão estranho quanto comprar uma casa que já tenha sido habitada anteriormente.


(a primeira imagem é do António Vasconcelos, as outras de autores desconhecidos)
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21.9.06

na franja do Gordon





Foi anteontem. Liguei a televisão e estava o velho Antímio de Azevedo a falar sobre a tempestade que era esperada nos Açores. A páginas tantas explicou que, com a mesma origem no Atlântico Sul, só conseguiu encontrar registo de um outro furacão, em 2003.
Será mais um dos efeitos do aquecimento global, e será portanto coveniente que a gente se habitue: é uma questão de tempo, eles estão para vir.

Entretanto também li que as alterações do clima estão a levar à extinção dos ciclamens, planta da Europa mediterrânica, região do globo cujo clima tradicional está muito perto de desaparecer - como ano após ano vamos tendo oportunidade de constatar pela evidência.

O crescente desequlíbrio ecológico do planeta tem levado, por outro lado, a que muitas doenças vão passando de outros hospedeiros para a espécie humana. Privados do seu habitat natural, os agentes infecciosos vão-se adaptando aos outros. As gripes aviárias serão só um exemplo.

Considerações à parte, uma franja do Gordon passou por aqui.


Veio meio de mansinho, pela noite, quase ninguém o ouviu. Para darmos com um cenário de ramos de árvores partidos e contentores do lixo à solta pelas ruas mal o dia amanheceu.

Depois amainou e ao fim da tarde - como quem se despede? - voltou a dar um ar da sua graça. Com a mais-valia de um longo e mágico movimento pela luz.

9.9.06

normalidades

Setembro. A normalidade está de regresso, instala-se de novo nas nossas vidas como se nunca de lá tivesse saído. Mais uma vez, deixamos todos de ter tempo.

Agosto, como é normal, é para esquecer. É certo que se desvaneceu um pouco o capacete de fumos de escape que habitualmente cobre o Porto, também ele se ausentou uns tempos. Mas sem cinza no horizonte parece que a gente já não vive - um mês de pasmaceira que teve este princípio:



efeitos de incêndio florestal, 4.ago.2006

para acabar assim:


efeitos de incêndio urbano, 27.ago.2006


26.7.06

serviço público não são só subsídios



Quem de direito já botou voto em relação à matéria. Mas isso não nos tira, a nós, o direito à indignação e ao protesto.
O Rivoli não tem por que perder qualidade nem por que fazer perder muito dinheiro. Só precisa de gente capaz para gerir a programação.

(Quanto ao senhores que propuseram e aprovaram esta indignidade, terei que me abster de tecer comentários. Tenho por regra não insultar ninguém neste espaço).

1.7.06

pergunte-se


ao senhor arquitecto que projectou a remodelação do Teatro Carlos Alberto se os lugares do balcão foram pensados para contorcionistas...

5.6.06

serralves em festa







Há lugares assim.
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Bem projectados. Bem feitos. Bem cuidados. Detentores de uma espécie de civilidade interínseca, que se estende às pessoas que os frequentam.
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Vem isto a propósito de 40 horas de festa no Parque de Serralves.
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Dos muitos milhares de pessoas que por lá andaram, que por lá fumaram, beberam, comeram, sem terem deixado um sem-número de detritos espalhados pelo chão. (E por lá andavam, note-se, os moradores dos bairros sociais vizinhos à mistura com novos e velhos ricos, com as classes média e assim-assim, com a elite política e intelectual do burgo).
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Onde estava, no fim de semana passado, a gente que habitualmente anda por aí - a que estaciona em 2ª fila, não respeita passadeiras nem quando chove, deixa os seus animais domésticos tornarem impraticável o mais pequeno quadrado de relvado?
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É exactamente a mesma que todos os dias se vê obrigada às sacrossantas horas perdidas nos transportes da periferia para o centro, e depois do centro para a periferia, a mesma que diariamente tem que respirar o mesmo ar envenenado, olhar o céu através da mesma nuvem de poluentes, a que reparte o mesmo espaço urbano abrutalhado, onde toda a gente se atropela e ninguém se vê.
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a
E que, quando não submetida ao stress do caos citadino, se revela afinal capaz de agir como gente civilizada.
a

Para quando, senhores autarcas, olhar-se mais para o Urbanismo, (que nem começa, nem acaba, nem se esgota na volumetria dos edifícios, como algumas vezes nos querem fazer crer), e um pouco menos nos interesses de construtores, imobiliárias, finaceiras & afins?
a
Para quando, senhores munícipes, começarmos a exigir qualidade no espaço, qualidade no ar, qualidade na vida das nossas cidades?
Não somos nós quem anda a pagar?
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de cima para baixo, da esquerda para a direita:
1. prado; 2. jardim romântico; 3. entre o prado e a colecção de aromáticas; 4. jardim romântico; 5, 6 e 7. jardim neo-clássico
a
PS: Todos os anos é assim. Um imenso leque de iniciativas. Abrangendo manifestações todas artes, em versão contemporânea, para todas as idades. De borla. Para toda a gente.
Andar por ali, ver reacções, ouvir comentários, fez-me lembrar o tempo em que era politicamente correcto (e conveniente...) barafustar contra a construção do museu, em detrimento de se gastar o dinheiro a levar cultura às zonas mais desfavorecidas. Alguém ainda se lembra disso?

15.5.06

nos arredores do Porto


Resta-nos às vezes, no meio deste urbanismo selvagem que à nossa volta se vai implantando, a sorte de poder olhar pela janela e ver espaço à nossa frente.
Há muito que tenho esse espaço um pouco como o meu quintal - aquilo que medeia entre a minha casa e o mundo, o ponto de onde todos os dias o meu olhar parte para tentar chegar mais além.
Quando aqui cheguei, há 30 anos, era espaço de campos de cultivo e vegetação mais ou menos serrada, com estreitos carreiros traçados na terra, e uma linha de caminho-de-ferro abandonada que em tempos cruzara a pequena estrada em paralelo que, de sudeste, atravessava a paisagem em diagonal.
Depois, quase de repente, abriu-se ao mundo: vieram primeiro novos bairros, pequeno comércio, melhores acessos, depois o hipermercado, o pavilhão de desportos, o hospital novo, o metro de superfície - a perfeita metáfora para a imagem de como os nossos universos de infância se vão perdendo face às evidências do que é real.
A questão é que há evidências que não precisavam de ser assim.
A questão é, por exemplo, a nuvem de tonalidades sempre mais escuras que se avista sobre o horizonte, de S. Mamede à Avenida da Boavista, sobretudo desde que os fogos dos últimos anos deram cabo de tudo o que era verde quilómetros à volta.
A questão é, por exemplo, deixar-se esvaziar uma cidade dos seus habitantes em nome da especulação imobiliária, da indústria automóvel, petrolífera & afins, e obrigar milhares de cidadãos a duas deslocações diárias muitas vezes demoradas, no sentido para ali terem que ir vender a sua força de trabalho porque há a sobrevivência a garantir ao fim do mês.
A questão é haver necessidade de levantar centenas de questões assim.
Aqui, do meu quintal, lugar da abrangência do mundo, vou começar a pôr algumas - embora às vezes até possa quase nem se perceber...